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	<title>Arquivo de Atualidades e Cotidianidades - Pangeia</title>
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	<title>Arquivo de Atualidades e Cotidianidades - Pangeia</title>
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		<title>Déficit habitacional: É possível resolvê-lo?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 13 Sep 2025 20:24:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades e Cotidianidades]]></category>
		<category><![CDATA[Cidadania]]></category>
		<category><![CDATA[Habitação]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanização]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A questão habitacional no Brasil é um desafio complexo e de longa data, com raízes históricas profundas e múltiplos atores envolvidos. Essa problemática, que abrange desde esferas governamentais até movimentos sociais e grupos de interesses privados, tem se mostrado resiliente ao longo do tempo. Um marco significativo em sua intensificação foi a promulgação da Lei [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-block-image">
<figure class="alignleft size-full is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2025/09/Imagem-Principal-Palafitas-Guaruja-SP-Leandro-Ordonez-Flickr-1.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="640" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2025/09/Imagem-Principal-Palafitas-Guaruja-SP-Leandro-Ordonez-Flickr-1.jpg" alt="" class="wp-image-2941" style="aspect-ratio:1.6;width:804px;height:auto"/></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Favela de palafitas no município de Guarujá, litoral do</em> <em>estado de São Paulo, Brasil.</em></figcaption></figure></div>


<p>A questão habitacional no Brasil é um desafio complexo e de longa data, com raízes históricas profundas e múltiplos atores envolvidos. Essa problemática, que abrange desde esferas governamentais até movimentos sociais e grupos de interesses privados, tem se mostrado resiliente ao longo do tempo. Um marco significativo em sua intensificação foi a promulgação da Lei de Terras de 1850 (Lei nº 601), que impulsionou a concentração fúndiária, e consolidou o debate sobre o acesso à terra como um dos maiores dilemas espaciais da população brasileira.</p>



<p>Embora a moradia seja amplamente reconhecida como um direito humano universal e, no Brasil, como um direito social garantido pelo Artigo 6º da Constituição Federal de 1988, sua efetivação no país enfrenta um embate direto com a lógica da propriedade privada e a ideologia do &#8220;sonho da casa própria&#8221; promovida pelo mercado imobiliário. Em grande parte, o acesso à moradia no Brasil tem sido mediado por políticas habitacionais baseadas em financiamento, as quais, não raramente, condicionam o acesso dos indivíduos e famílias à habitação às suas rendas e possibilidades de endividamento a longo prazo.</p>



<p>É crucial entender que a dignidade da moradia vai além da simples aquisição ou financiamento de uma casa. Pesquisas, como a de satisfação com o Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV) realizada pelo Ministério das Cidades (Brasil, 2014), demonstram que o conceito de moradia digna engloba a integração com o cotidiano, a mobilidade e o acesso a equipamentos e serviços públicos. Não se trata apenas da estrutura física, mas da conexão das residências com o entorno e a qualidade de vida que essa conexão proporciona. Assim, para se realizar uma leitura ampla da questão habitacional, deve-se associar o direito à moradia ao direito à cidade, ou seja, reconhecer que morar adequadamente vincula-se também as possibilidades de acesso à vida urbana (e às suas facilidades) que o local em que a moradia se situa permite.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-large is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2025/09/Imagem-Secundaria-3-Jean-Carlos-na-Unsplash-1-scaled.jpg"><img decoding="async" width="1024" height="1024" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2025/09/Imagem-Secundaria-3-Jean-Carlos-na-Unsplash-1-1024x1024.jpg" alt="" class="wp-image-2979" style="aspect-ratio:1;width:732px;height:auto" srcset="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2025/09/Imagem-Secundaria-3-Jean-Carlos-na-Unsplash-1-1024x1024.jpg 1024w, https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2025/09/Imagem-Secundaria-3-Jean-Carlos-na-Unsplash-1-300x300.jpg 300w, https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2025/09/Imagem-Secundaria-3-Jean-Carlos-na-Unsplash-1-150x150.jpg 150w, https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2025/09/Imagem-Secundaria-3-Jean-Carlos-na-Unsplash-1-768x768.jpg 768w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Favela da Rocinha, Rio de Janeiro, Brasil.</em></figcaption></figure></div>


<p>As políticas habitacionais promovidas pelo Governo Federal surgiram como uma resposta social e econômica ao problema do déficit habitacional. Entre pesquisadores e gestores públicos, há um reconhecimento da necessidade de substituir imóveis precários, construir novas moradias, mitigar o ônus excessivo com o aluguel e resolver a coabitação familiar. Esses aspectos são componentes essenciais do cálculo do <em>déficit habitacional</em>, conceito elaborado pela Fundação João Pinheiro e que é utilizado pelo Governo Federal para a formulação de políticas públicas orientadas ao setor.</p>



<p>Em 2009, ano da criação do PMCMV, o déficit habitacional, isto é, o número de habitações que estimava-se ser necessário construir para atender a parcela da população que não dispunha de residência, ou que vivia em condições precárias, era de mais de 5,8 milhões de moradias. Atualmente, esse número permanece em aproximadamente 5,9 milhões, segundo dados da Fundação João Pinheiro (2025). Isso indica que, embora o PMCMV tenha desacelerado o aumento do déficit, com aproximadamente 8,4 milhões de moradias entregues entre 2009 e 2024 (Brasil, 2025), essa política não foi suficiente para sanar o problema estrutural da carência habitacional no Brasil. Para enfrentar essa questão, é imperativo frear a especulação imobiliária, reduzir o número de domicílios vazios (incluindo imóveis de temporada), resolver o problema da concentração de terras e ampliar as alternativas habitacionais para atender os diferentes estratos sociais da população brasileira.</p>



<p>Anos após a massificação do financiamento como principal via de acesso à moradia, o Brasil tem começado a diversificar suas políticas públicas para o setor. Embora o financiamento ainda represente a maior parcela do PMCMV, o Governo Federal tem formulado novas estratégias para alcançar a população excluída do programa devido à baixa renda que apresentam, as dificuldades de acesso ao sistema bancário de financiamento que possuem, e a parca disponibilidade de habitações de cunho social existente.</p>



<p>Em 2023, por exemplo, o Governo Federal lançou uma reserva obrigatória de 3% das unidades habitacionais na modalidade Fundo de Arrendamento Residencial (FAR) para pessoas em situação de rua ou com trajetória de rua. Essa iniciativa, que abrangeu 38 municípios em capitais e regiões metropolitanas brasileiras, é um esforço conjunto dos Ministérios das Cidades, Direitos Humanos e Cidadania, Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. A proposta vai além da simples entrega da casa, buscando associar o acesso à moradia à promoção de outros direitos básicos para essa população pobre e vulnerável.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignleft size-full is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2025/09/Imagem-Secundaria-Salvador-2.jpg"><img decoding="async" width="1280" height="683" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2025/09/Imagem-Secundaria-Salvador-2.jpg" alt="" class="wp-image-2989" style="aspect-ratio:1.8740849194729137;width:779px;height:auto"/></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Comunidade da Gamboa, Salvador, Bahia, Brasil.</em></figcaption></figure></div>


<p>Um exemplo recente (ano de 2024) é a &#8220;Parceria Público-Privada (PPP) Morar no Centro&#8221;, projeto implantado no Município do Recife/PE, e que conta com a participação do Governo Federal. A iniciativa visa o aluguel social de imóveis mobiliados em áreas centrais, com a assistência de serviços executados pela PPP na instalação, manutenção e operação de empreendimentos para a população de baixa renda e para o mercado popular, englobando gestão condominial, trabalho técnico, social e comunitário para o atendimento dos diferentes tipos de arranjos familiares (Prefeitura do Recife, 2025).</p>



<p>Essa proposta de requalificação de imóveis para locação social, sugerida pelo município, apresenta uma alternativa territorializada para repensar a implementação nacional das políticas públicas em um país de dimensões continentais. A elaboração desse projeto envolve estudos aprofundados, audiências públicas e coordenação entre múltiplos atores, refletindo uma abordagem mais abrangente para o enfrentamento da problemática da moradia.</p>



<p>Por fim, é válido mencionar que o presente texto se dispôs a apresentar brevemente diferentes problemáticas de acesso à moradia, refletir sobre alguns aspectos da atuação do PMCMV no país, evidenciar a capacidade de resposta do Governo Federal ao dilema do déficit e abordar a urgência de se (re)pensar as políticas habitacionais em vista da complexidade social dos arranjos familiares, desigualdades espaciais e de renda da população. Como bem se sabe, justamente por ainda haver &#8220;tanta gente sem casa e muita casa sem gente&#8221;, o problema do acesso à moradia continua reclamando uma solução adequada, digna, urgente e definitiva em nosso país.</p>



<p class="has-large-font-size"></p>



<p></p>



<ul>
<li><strong> Referências bibliográficas</strong></li>
</ul>



<p>BRASIL. <strong>Pesquisa de satisfação dos beneficiários do Programa Minha Casa Minha Vida</strong>. Ministério das Cidades/Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Editado por Fernando Garcia de Freitas e Érica Negreiros de Camargo – Brasília, DF: MCIDADES; SNH; SAE-PR; IPEA, 2014. 120 p.</p>



<p>____. Secretaria de Comunicação Social (Secom). <strong>Minha Casa, Minha Vida fecha 2024 com 1,26 milhão de unidades contratadas</strong><strong>. </strong>Disponível em: https://www.gov.br/secom/pt-br/assuntos/noticias/2025/janeiro/mcmv-fecha-2024-com-1-26-milhao-de-unidades-contratadas. Publicado em: 29/01/2025.</p>



<p>FAGNANI, Eduardo. Política habitacional. In. GIOVANNI, Geraldo; NOGUEIRA, Marco (Orgs.). In. <strong>Dicionário de políticas públicas.</strong> São Paulo: Editora UNESP, 2015.&nbsp; pp. 756-761.</p>



<p>FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO. <strong><em>Déficit </em>Habitacional no Brasil</strong>. Disponível: &lt;https://fjp.mg.gov.br/deficit-habitacional-no-brasil/&gt;. Acesso: 16 Jun. 2025.</p>



<p>MINISTÉRIOS DAS CIDADES. <strong>Conheça o Minha Casa, Minha Vida para pessoas em situação de rua</strong>. Disponível: &lt;<a href="https://www.gov.br/cidades/pt-br/assuntos/noticias-1/noticia-mcid-n-1121">https://www.gov.br/cidades/pt-br/assuntos/noticias-1/noticia-mcid-n-1121</a>&gt;. Acesso: 09 Jun. 2025.</p>



<p>PREFEITURA DO RECIFE. <strong>Parceria Pública-Pública (PPP) “Morar no Centro”.</strong> Disponível: &lt;parcerias.recife.gov.br&gt;. Acesso: 30 Abr. 2025.</p>



<p>SOUZA, Flávia da Silva. O aprofundamento de desigualdades no espaço do trabalhador a partir do programa “Minha Casa Minha Vida” no município de Nova Iguaçu-RJ. 2019. 145 f. Dissertação (Mestrado em Geografia) &#8211; Instituto de Agronomia/Instituto Multidisciplinar de Nova Iguaçu, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, RJ, 2019.</p>



<p class="has-large-font-size"></p>



<ul>
<li><strong>Sobre a autora</strong></li>
</ul>



<p><em>Flávia é graduada e mestra em Geografia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e doutora em Geografia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).</em></p>
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			</item>
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		<title>A chuva é igual para todos?</title>
		<link>https://pangeia.ufrrj.br/a-chuva-e-igual-para-todos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Francisco]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 13 Sep 2025 20:16:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades e Cotidianidades]]></category>
		<category><![CDATA[Pobreza]]></category>
		<category><![CDATA[Riscos ambientais]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanização]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quando olhamos para o céu e vemos as nuvens se formando, a chuva que se aproxima parece ser a mesma para todos. Ela não escolhe onde cair, quem molhar ou quem beneficiar. No alto, no processo natural de sua formação, a chuva é, de fato, “democrática”. Mas essa igualdade termina no exato momento em que [&#8230;]</p>
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<figure class="alignleft size-full is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2025/09/Imagem-Principal-Foto-de-Diego-Fraga-pexels.com_-5-scaled.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="1931" height="2560" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2025/09/Imagem-Principal-Foto-de-Diego-Fraga-pexels.com_-5-scaled.jpg" alt="" class="wp-image-3009" style="aspect-ratio:0.754296875;width:621px;height:auto" srcset="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2025/09/Imagem-Principal-Foto-de-Diego-Fraga-pexels.com_-5-scaled.jpg 1931w, https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2025/09/Imagem-Principal-Foto-de-Diego-Fraga-pexels.com_-5-1159x1536.jpg 1159w, https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2025/09/Imagem-Principal-Foto-de-Diego-Fraga-pexels.com_-5-1545x2048.jpg 1545w" sizes="(max-width: 1931px) 100vw, 1931px" /></a></figure></div>


<p class="has-medium-font-size"></p>



<p>Quando olhamos para o céu e vemos as nuvens se formando, a chuva que se aproxima parece ser a mesma para todos. Ela não escolhe onde cair, quem molhar ou quem beneficiar. No alto, no processo natural de sua formação, a chuva é, de fato, “democrática”. Mas essa igualdade termina no exato momento em que as gotas tocam o chão. É aí que começam a aparecer, de forma muito clara, as marcas das desigualdades sociais e espaciais.</p>



<p>Esse tema, que pode parecer distante ou abstrato, está muito mais perto do nosso dia a dia do que imaginamos. Um exemplo bem didático encontra-se no filme <em>Parasita </em>(2019), especialmente na cena em que uma forte chuva gera impactos completamente diferentes para duas famílias. Para a família rica, que mora numa casa ampla, bem estruturada e protegida, a chuva é apenas um refresco, uma “bênção” pois traz alívio depois de dias de calor. Enquanto isso, para a família pobre, que vive em um subsolo apertado e vulnerável, essa mesma chuva se transforma em pesadelo: a casa é invadida por água suja, eles perdem o pouco que têm e precisam lidar com o caos causado pelo alagamento.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2025/09/Imagem-secundaria-1-2.png"><img loading="lazy" decoding="async" width="620" height="615" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2025/09/Imagem-secundaria-1-2.png" alt="" class="wp-image-3034" style="aspect-ratio:1.008130081300813;width:331px;height:auto" srcset="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2025/09/Imagem-secundaria-1-2.png 620w, https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2025/09/Imagem-secundaria-1-2-150x150.png 150w" sizes="(max-width: 620px) 100vw, 620px" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Cena do filme Parasita, direção de Bong Joon-ho, 2019</em>.<br><br></figcaption></figure></div>


<p>Cenas como a retratada no filme <em>Parasita</em> não estão tão distantes da nossa realidade. Em diversas regiões do Brasil, as chuvas fortes têm revelado um retrato social desigual e o quanto as populações pobres tendem a ser as mais atingidas pelas consequências desses eventos climáticos.</p>



<p>Por exemplo, no ano de 2022, a cidade de Petrópolis, localizada no estado do Rio de Janeiro, enfrentou sua maior tragédia climática. Segundo dados da Defesa Civil de Petrópolis (Beck, 2023), mais de 4.000 mil famílias ficaram desalojadas e 241 óbitos foram registrados após um período de intensas chuvas no município. Muitas dessas mortes ocorreram em decorrência dos deslizamentos de terra no Morro da Oficina, lugar habitado predominantemente por populações de baixa renda.</p>



<p>De forma semelhante, em 2024, as inundações que acometeram grande parte do estado do Rio Grande do Sul deixaram várias cidades debaixo d&#8217;água e impressionaram todo o Brasil. Segundo o Observatório das Metrópoles (2024), as áreas mais afetadas pelas enchentes concentravam populações de baixa renda e, especialmente, a população negra. Esses eventos evidenciam um profundo contraste social, pois os mais atingidos são também aqueles que mais necessitam do apoio do poder público e enfrentam maiores dificuldades para depois reestabelecerem sua vida.</p>



<p>Esses episódios têm se tornado cada vez mais frequentes e acontecem em outras regiões e municípios brasileiros, como em Nova Iguaçu, localizado na Baixada Fluminense. Apesar de ser um fenômeno natural, a chuva acaba funcionando como uma espécie de “lupa” que escancara as desigualdades sociais e deixa evidente quem são os mais afetados pelos problemas urbanos e ambientais. E não é preciso muito esforço para perceber isso.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignleft size-full is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2025/09/Imagem-secundaria-3.png"><img loading="lazy" decoding="async" width="813" height="459" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2025/09/Imagem-secundaria-3.png" alt="" class="wp-image-3024" style="aspect-ratio:1.7712418300653594;width:685px;height:auto"/></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Transbordamento do Rio Botas, município de Nova Iguaçu, Rio de Janeiro. Foto: G1, 2022.</em></figcaption></figure></div>


<p>Dados da estação meteorológica da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), localizada no Colégio Estadual Mestre Hiram, no centro de Nova Iguaçu, mostram como as chuvas intensas fazem parte da rotina da cidade. Só em dezembro de 2024, por exemplo, foram registrados 148 mm de chuva em um intervalo de 4 horas, volume suficiente para gerar alagamentos, deslizamentos e uma série de problemas urbanos. Nesse mesmo dia, a Defesa Civil precisou emitir alertas, elevando o nível de risco, justamente porque eventos como esse aumentam a possibilidade de desastres ambientais.</p>



<p>O problema é que os impactos dessa chuva não são sentidos da mesma maneira por todos. Isso acontece por vários fatores, como o relevo, o tipo de ocupação do solo e, principalmente, a forma como a cidade se organizou ao longo do tempo. A área central de Nova Iguaçu, por exemplo, tem uma baixa declividade, ou seja, é mais plana. Isso, somado à urbanização desordenada e à impermeabilização do solo, impede a água de ser absorvida, fazendo com que o risco de alagamentos e enchentes seja maior.</p>



<p>De maneira geral, a urbanização brasileira é marcada por processos históricos de segregação socioespacial. É comum as pessoas de maior poder aquisitivo residirem nas áreas mais valorizadas das cidades, isto é, dotadas de toda sorte de infraestruturas, amenidades (como parques e áreas arborizadas) e menos suscetíveis a problemas ambientais, como enchentes e deslizamentos de terras. Já as populações mais pobres foram “empurradas”, ao longo do tempo, para áreas mais distantes e precárias, desprovidas de infraestruturas urbanas e, consequentemente, mais vulneráveis, muitas vezes às margens de rios, encostas ou fundos de vale. São justamente essas áreas que mais sofrem quando a chuva vem forte.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2025/09/Imagem-secundaria-4.png"><img loading="lazy" decoding="async" width="638" height="467" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2025/09/Imagem-secundaria-4.png" alt="" class="wp-image-3027" style="aspect-ratio:1.366167023554604;width:776px;height:auto"/></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Perfil de elevação do terreno, município de Nova Iguaçu, Rio de Janeiro. Fonte: Fonte: Google Earth, 2025</em>.</figcaption></figure></div>


<p>Além disso, as mudanças climáticas em curso têm agravado ainda mais essa situação. Estudos mostram que eventos extremos, como chuvas intensas e ondas de calor, estão se tornando cada vez mais frequentes e severas. E quem sente com mais força esses impactos? As populações que já vivem em situação de vulnerabilidade socioespacial. Trata-se daquele velho ciclo nada virtuoso: quem tem menos recursos e mora em locais mais precários, têm menos acesso à infraestrutura, saneamento e proteção, e por isso sofre mais.</p>



<p>O aumento das temperaturas, as alterações nos padrões de precipitação e a maior frequência de eventos naturais extremos não são mais previsões de um futuro distante; são agora uma realidade. E o mais preocupante é que, apesar de todas essas evidências, as políticas públicas ainda caminham de forma lenta e, muitas vezes, são ineficientes para lidar com esses desafios. As Prefeituras Municipais, que deveriam estar na linha de frente desse debate, ainda não incorporam de forma consistente a questão climática nas suas estratégias de planejamento e desenvolvimento urbano.</p>



<p>Diante desse cenário, surgem algumas indagações, como por exemplo: até que ponto a própria pobreza, e os processos de segregação e exclusão social e espacial, não se tornam também um fator de potencialização dos desastres ambientais? Ou ainda, até que ponto a situação de pobreza não torna essa parcela da população ainda mais suscetível aos riscos climáticos e ambientais?</p>



<p>A resposta, infelizmente, aparece toda vez que uma nuvem escura se forma no céu. A chuva, por si só, não escolhe onde cair, mas o chão onde ela toca está longe de ser igual para todos. E, enquanto essa realidade não mudar, continuará sendo assim: a água que refresca uns, afoga e destrói a vida de outros.</p>



<p class="has-large-font-size"></p>



<ul>
<li><strong>Referências</strong></li>
</ul>



<p>ARMOND, Núbia Beray; SANT&#8217;ANNA NETO, João Entre Eventos e Episódios: Ritmo Climático e Excepcionalidade para uma Abordagem Geográfica do Clima no Município do Rio de Janeiro. Revista Brasileira de Climatologia, [S. l.], v. 20, 202 Lima.1.</p>



<p>BBC NEWS BRASIL. 25 imagens impactantes da tragédia das chuvas no Rio Grande do Sul. Disponível em:<a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/cx7d1ppl0lzo"> </a><a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/cx7d1ppl0lzo">https://www.bbc.com/portuguese/articles/cx7d1ppl0lzo</a>. Acesso em: 8 ago. 2025.</p>



<p>Beck, Z. J. V. (2023). Meio ambiente e cidades resilientes: Reflexões sobre o desastre em Petrópolis no ano de 2022. <em>Revista Da EMERJ</em>, <em>24</em>(2), 202–216. Acesso em: 8 ago. 2025 <a href="https://ojs.emerj.com.br/index.php/revistadaemerj/article/view/484">https://ojs.emerj.com.br/index.php/revistadaemerj/article/view/484</a></p>



<p>CLIMAENGEO. Estação Meteorológica. Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Nova Iguaçu, 2024.</p>



<p>G1. <em>Dois anos depois, Petrópolis ainda se recupera dos impactos da tragédia de 15 de fevereiro</em>. 15 fev. 2024. Disponível em:<a href="https://g1.globo.com/rj/regiao-serrana/noticia/2024/02/15/dois-anos-depois-petropolis-ainda-se-recupera-dos-impactos-da-tragedia-de-15-de-fevereiro.ghtml"> </a><a href="https://g1.globo.com/rj/regiao-serrana/noticia/2024/02/15/dois-anos-depois-petropolis-ainda-se-recupera-dos-impactos-da-tragedia-de-15-de-fevereiro.ghtml">https://g1.globo.com/rj/regiao-serrana/noticia/2024/02/15/dois-anos-depois-petropolis-ainda-se-recupera-dos-impactos-da-tragedia-de-15-de-fevereiro.ghtml</a>. Acesso em: 12 jul. 2025.</p>



<p>G1. <em>A prefeitura de Nova Iguaçu decreta situação de emergência após fortes chuvas</em>. Rio de Janeiro: G1, 2 abr. 2022. Disponível em:</p>



<p><a href="https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2022/04/02/prefeitura-de-nova-iguacu-decreta-situacao-de-emergencia-apos-fortes-chuvas.ghtml">https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2022/04/02/prefeitura-de-nova-iguacu-decreta-sit</a> <a href="https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2022/04/02/prefeitura-de-nova-iguacu-decreta-situacao-de-emergencia-apos-fortes-chuvas.ghtml">uacao-de-emergencia-apos-fortes-chuvas.ghtml</a>. Acesso em: 31 maio 2025.</p>



<p>MARENGO, J. A.. Água e mudanças climáticas . Estudos Avançados, São Paulo, Brasil, v. 22, n. 63, p. 83–96, 2008.</p>



<p>MENEZES, Wallace de Araújo, 1990- A heterogeneidade e as mudanças na paisagem da bacia hidrográfica dos rios Iguaçu-Sarapuí (RJ) e seus efeitos nas inundações urbanas / Wallace de Araújo Menezes. &#8211; 2018.</p>



<p>OBSERVATÓRIO DAS METRÓPOLES. <em>População pobre e negra é a mais afetada pelas enchentes no Rio Grande do Sul</em>. 2024. Disponível em:<a href="https://www.observatoriodasmetropoles.net.br/boletins/populacao-pobre-e-negra-e-mais-afetada-pelas-enchentes-no-rio-grande-do-sul/"> </a><a href="https://www.observatoriodasmetropoles.net.br/boletins/populacao-pobre-e-negra-e-mais-afetada-pelas-enchentes-no-rio-grande-do-sul/">https://www.observatoriodasmetropoles.net.br/boletins/populacao-pobre-e-negra-e-mais-afetada-pelas-enchentes-no-rio-grande-do-sul/</a>. Acesso em: 12 jul. 2025.</p>



<p>PARASITA. Direção: Bong Joon-ho. Coreia do Sul: Barunson E&amp;A, 2019. 1 filme (132 min).</p>



<p>SIMÕES, M. R.. A cidade estilhaçada: reestruturação econômica e emancipações municipais na Baixada Fluminense Tese de Doutorado. Niteroi, Universidade Federal Fluminense. 2006.</p>



<p>TUCCI, C. E. M. Águas urbanas. Estudos Avançados, São Paulo, Brasil, v. 22, n. 63, p. 97–112, 2008.</p>



<p>ZANGALLI JUNIOR, P. C.. (Des)articulações entre crise climática e riscos urbano ambientais. Revista Brasileira de Climatologia, [S. l.], v. 34, n. 20, p. 134–158, 2024.</p>



<p class="has-large-font-size"></p>



<ul>
<li><strong>Sobre as autoras</strong></li>
</ul>



<p><em>Gabrielle e Bianca são alunas do curso de mestrado em Geografia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.</em></p>
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		<title>Antropoceno: o planeta em rota de mudança?</title>
		<link>https://pangeia.ufrrj.br/antropoceno-o-planeta-em-rota-de-mudanca/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Francisco]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 08 Aug 2024 17:59:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades e Cotidianidades]]></category>
		<category><![CDATA[Crise ambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Geologia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Apesar de canonizado no âmbito das geociências e de outros campos do conhecimento científico, o Antropoceno,&#160;enquanto época geológica,&#160;não foi aclamado por maioria de votos para compor oficialmente o topo da coluna estratigráfica,&#160;acima do Holoceno, permanecendo como unidade informal aos olhos dos critérios bem marcados da Geologia, que procura nuclear um debate que há muito transbordou [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-block-image">
<figure class="alignleft size-full is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/08/Imagem-Principal-3.png"><img loading="lazy" decoding="async" width="854" height="1000" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/08/Imagem-Principal-3.png" alt="" class="wp-image-2695" style="aspect-ratio:0.854;width:594px;height:auto"/></a></figure></div>


<p>Apesar de canonizado no âmbito das geociências e de outros campos do conhecimento científico, o Antropoceno,&nbsp;enquanto época geológica,&nbsp;não foi aclamado por maioria de votos para compor oficialmente o topo da coluna estratigráfica,&nbsp;acima do Holoceno, permanecendo como unidade informal aos olhos dos critérios bem marcados da Geologia, que procura nuclear um debate que há muito transbordou o escopo puramente geocientífico e passou a permear as mais diferentes áreas do conhecimento.</p>



<p>O Antropoceno não figura meramente como um acumulado de ações humanas sobre o sistema Terra, mas projeta-se como uma emergência, uma franca mudança do estado dinâmico-funcional global vigente durante o Holoceno,&nbsp;determinado pela capacidade humana em alterar processos geológicos e climáticos em macroescala. Admitir o Antropoceno, portanto, implica pensar em evolução, em internalizar a perspectiva hegeliana de transformação qualitativa, transposta no plano material por Marx e Engels pela Lei da Transformação da Quantidade em Qualidade. A transformação qualitativa implica em mudança de estado, uma substituição de processos dinâmicos reversíveis que vigiam no estado anterior por processos dinâmicos,&nbsp;distintos,&nbsp;inerentes ao estado emergente, assumindo assim uma natureza irreversível.</p>



<p>Defender a legitimidade do Antropoceno demanda pensar em irreversibilidade, e carece, portanto, de um substrato argumentativo proficiente o suficiente para embasar tais transformações qualitativas e irreversíveis, quais sejam: incremento de matéria e energia oriundas de atividades humanas acumuláveis em registros estratigráficos globalmente relacionáveis; carbonização da atmosfera com viés de aquecimento climático e progressiva reorganização na circulação geral da atmosfera; modificação na assinatura geoquímica dos solos e das águas pela mudança no ciclo de elementos como fósforo, nitrogênio e urânio devido às práticas monocultoras e de geração de energia; simplificação extensiva de paisagens determinada por práticas econômicas agroexportadoras e substituição progressiva dos biomas originais pelos chamados antromas; perda de funcionalidades ecossistêmicas e efeitos deletérios na biota animal e vegetal, cujo prognóstico é a formação de uma neobiota antropocênica, entre outros efeitos.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-large is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/08/Imagem-secundaria-1-2.png"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="853" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/08/Imagem-secundaria-1-2-1024x853.png" alt="" class="wp-image-2696" style="aspect-ratio:1.2004689331770222;width:502px;height:auto"/></a></figure></div>


<p>A abstração de uma esfera humana envolvendo as esferas naturais que formam o invólucro terrestre remetem ao século dezenove, tendo como referência a obra <em>Man and Nature or physichal geography as modified by human action</em>&nbsp;de Georges P. Marsh (1801-1882), publicada no ano de 1864. Várias proposições sucederam esta importante obra versando ao redor da esfera humana, culminando com a poderosa noção de noosfera e que tem sido creditada ao geólogo e jesuíta francês Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955), ao matemático e filósofo francês Édouard Le Roy (1870-1954) e ao geoquímico russo Vladimir Vernadsky (1863-1945). Entre os três cientistas citados, Vernadsky foi quem aproximou a noção de noosfera mais contundentemente às relações sistêmicas que vigem no sistema Terra, contextualizando seu surgimento na medida em que a consciência humana se projeta da biosfera, desde o primeiro despertar ainda no Paleolítico até a culminância da Idade Atômica.</p>



<p>Vernadsky concebeu a noosfera olhando para o futuro a partir de seu tempo, defendendo a aproximação, a partir de meados do século vinte, de um estado regido pelos ritmos e intencionalidades humanas pelo qual a humanidade adquire uma poderosa e inexorável força,&nbsp;enquanto agente transformador de elementos da paisagem que evoluem em longo termo. Indefectivelmente, essa capacidade de transformar variáveis que evoluem no tempo mais profundo foi um critério aventado pelo insigne cientista russo e que tem servido como mote para pensar o Antropoceno na contemporaneidade, incluindo o estabelecimento de sua temporalidade. Nessa linha, os painéis que a comissão estratigráfica internacional propuseram para definir o tempo do Antropoceno convergiram em estabelece-lo a partir do pós-guerra, o chamado período das “Grandes Acelerações”, explícito no aumento exponencial de vários elementos caros para a apreensão de uma mudança de estado: expansão do contingente demográfico humano, perda de biodiversidade, acidificação de águas oceânicas e formação de zonas mortas marinhas, aumento das atividades monoculturas e dos elementos químicos utilizados como fertilizantes, incremento do urânio produzido e armazenado, ampliação dos materiais tecnogênicos nos arquivos sedimentares, aprofundamento da espoliação humana e da distinção entre Norte e Sul global orquestrada pelas lógicas capitalistas, entre outros efeitos.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignleft size-large is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/08/Imagem-Secundaria-3-1.png"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="960" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/08/Imagem-Secundaria-3-1-1024x960.png" alt="" class="wp-image-2697" style="aspect-ratio:1.0666666666666667;width:553px;height:auto"/></a></figure></div>


<p>No atual estado da arte e do debate ao redor do Antropoceno, considera-lo como uma temporalidade válida apenas a partir de um registro estratigráfico, aderindo aos cânones tradicionais da Geologia Sedimentar, francamente simplifica significados mais profundos subjacentes ao Antropoceno. Não resta dúvida, as “Grandes Acelerações” correspondem de forma mais ou menos síncrona às acelerações do próprio sistema capitalista e ao aprofundamento da exploração da sua base material contida na natureza em prol da sua expansão. O tempo do Antropoceno é um tempo de transformações irreversíveis na aludida base material, mas também é um tempo da ampliação das zonas de sacrifício nos países de limitada condição material para suprir déficits de economias centrais por determinados recursos, um tempo no qual as fissuras metabólicas tem se expandido e coalescido, impondo rupturas na atmosfera, na biosfera e na hidrosfera de fio a pavio, convertendo as crises ambientais atuais em situações de franco e irreversível colapso ainda não plenamente consensuais acerca da abrangência dos seus efeitos, mas que colocam cientistas e humanistas em geral em ininterrupta belicosidade contra as denegações que infestam o debate, normalmente propaladas em alinhamento ao interesse das grandes corporações que lucram com a exploração dessa base material.</p>



<p>É preciso, portanto, aceitar o Antropoceno para que o enfrentamento político das bases hegemônicas do capitalismo não sejam inócuas. Sendo os efeitos irreversíveis, novos sistemas de compartilhamento de nichos deverão e estão emergindo e, indubitavelmente, o atual sistema de partilha dos recursos mundiais recrudescerá as condições de vida de grande parte da população mundial. Essa repactuação, certamente, não partirá de governos e seus conluios com os grandes agentes do capital, incapazes de cumprir as cláusulas de tratados e acordos ambientais dos quais são signatários, mas sim de uma ampla mobilização de forças e movimentos contra-hegemônicos capazes de pressionar governos a enfrentarem os grandes conglomerados capitalistas (dos quais muitas vezes são lacaios) e promover a verdadeira emancipação dos grupos humanos e horizontes culturais associados frente às bases naturais que habitam e que perfazem seu espaço vivido e suas relações identitárias.</p>



<ul>
<li><strong>Leituras sugeridas</strong></li>
</ul>



<p>ANGUS, I. <strong>Enfrentando o Antropoceno</strong>. São Paulo: Boitempo, 2023. 287p.</p>



<p>MARQUES, L. <strong>Capitalismo e colapso ambiental</strong>&nbsp;(2° ed.). Campinas: Editora da UNICAMP, 2016. 711p</p>



<p>ZALASIEWICZ, J.; WATERS, C. N.; WILLIANS, M.; SUMMERHAYES, C. P. (Eds.) <strong>The Anthropocene as a Geological Time Unit:</strong>&nbsp;a guide to the scientific evidence and current debate. Cambridge: Cambridge University Press, 2019.</p>



<ul>
<li><strong>Sobre o autor</strong></li>
</ul>



<p><em>Roberto é professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Juiz de Fora.</em><em></em></p>
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		<title>O uso dos territórios pelas empresas multinacionais</title>
		<link>https://pangeia.ufrrj.br/o-uso-dos-territorios-pelas-empresas-multinacionais/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Francisco]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 08 Aug 2024 16:27:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades e Cotidianidades]]></category>
		<category><![CDATA[Corporações]]></category>
		<category><![CDATA[Desenvolvimento]]></category>
		<category><![CDATA[Globalização]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A presença de multinacionais em praticamente todo o mundo é um fato consolidado. Seja no que comemos, bebemos, vestimos, nos medicamos, nos locomovemos, nos entretemos e nos comunicamos, no nome daquele estádio de futebol, na conta de luz (de alguns), entre outros, lá estão elas, acompanhadas de expectativas relacionadas à geração de emprego e renda, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-block-image">
<figure class="alignleft size-full is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/08/Imagem-pincipal.png"><img loading="lazy" decoding="async" width="1500" height="1277" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/08/Imagem-pincipal.png" alt="" class="wp-image-2638" style="aspect-ratio:1;width:519px;height:auto"/></a></figure></div>


<p>A presença de multinacionais em praticamente todo o mundo é um fato consolidado. Seja no que comemos, bebemos, vestimos, nos medicamos, nos locomovemos, nos entretemos e nos comunicamos, no nome daquele estádio de futebol, na conta de luz (de alguns), entre outros, lá estão elas, acompanhadas de expectativas relacionadas à geração de emprego e renda, desenvolvimento econômico e social, modernização, universalização de serviços, inserção no mercado global e uma série de outros supostos benefícios.</p>



<p>Desde o final do século XIX, mas com maior frequência a partir da metade do século XX, estes agentes passaram a fazer parte do cotidiano de diversas pessoas e, de formas variadas, expandiram ainda mais suas ações mundo afora graças ao desenvolvimento dos meios de transporte e comunicação, à globalização neoliberal e a queda de regulamentações nacionais que as impediam de atuarem à vontade e explorarem recursos econômicos, humanos e naturais em diferentes países. Ao longo de todo esse período, as empresas passaram por profundas mudanças internas (organização da produção, gestão dos negócios etc.), aperfeiçoaram (em proveito próprio) suas formas de relacionamento com os países, e se transformaram em agentes fundamentais para a constituição de uma economia global.</p>



<p>Como a sua própria denominação sugere, tratam-se de empresas atuantes em diversas partes do mundo, mesmo que mantenham suas sedes nos seus países de origem. Em seu processo de internacionalização, atuam de forma seletiva, ou seja, escolhem os lugares que podem propiciar mais lucros, se aproveitando das diferenças e desigualdades existentes entre países. A maior ou menor disponibilidade de recursos naturais, a magnitude dos mercados consumidores, a rigidez ou fragilidades das legislações ambientais e trabalhistas, a disponibilidade e eficiência das infraestruturas já existentes, a prontidão dos Estados nacionais em atender suas demandas, são apenas alguns fatores que explicam a escolha que realizam dos países que sediarão suas atividades e serão alvo de suas estratégias de produção e exploração de mercados. Por outro lado, para os lugares que recebem estes agentes, não raramente eles passam a vê-los como o principal caminho para se modernizarem e se desenvolverem rapidamente.</p>



<p>Esta prontidão dos Estados nacionais para recebê-las acaba por promover um processo de <em>corporatização de territórios</em>, marcado por uma destinação de recursos públicos – orçamento e bens patrimoniais – para uso privilegiado de multinacionais ou grandes empresas nacionais, muitas vezes em detrimento da sociedade. Associado a isso, tem-se, por parte do poder público, a&nbsp;criação de normas, leis e decretos que reduzem os custos (por meio de isenções totais ou parciais de impostos e taxas) de operações e circulação de mercadorias, dinheiro ou de transações financeiras realizados pelas corporações.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/08/Imagem-secundaria-2.png"><img loading="lazy" decoding="async" width="602" height="339" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/08/Imagem-secundaria-2.png" alt="" class="wp-image-2639" style="aspect-ratio:1.775811209439528;width:636px;height:auto"/></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Polo Industrial de Itatiaia/RJ. Depois do município se inserir na guerra dos lugares, visando atrair multinacionais de setores variados.</em></figcaption></figure></div>


<p>Ao mesmo tempo em que o poder público cria estratégias para atrair estes agentes – através da disponibilização de recursos territoriais como isenção de impostos, doação de terrenos e outras infraestruturas – as empresas apresentam demandas sobre mudanças de normas e formas que otimizem suas ações no lugar. O atendimento de tais demandas contribui para o aprofundamento do uso corporativo do território.</p>



<p>No Brasil, ambos os casos levaram, desde o final do século XX, à intensificação de disputas entre estados e municípios para ver quem oferece melhores condições e, assim, consegue atrair grandes empresas para seus territórios. Amplamente conhecidas como <em>guerra fiscal</em>, essas disputas também envolvem, não raramente, cessão de uso de áreas públicas, doação de terras, construção de trechos de rodovias etc., nos permitindo falar em uma <em>guerra dos lugares</em>, na qual a escolha das empresas considera um conjunto de circunstâncias vantajosas, e não somente as questões fiscais.</p>



<p><span style="font-family: Calibri; font-size: revert; text-align: justify; color: initial;">Apesar de não ouvirmos mais falar, com tanta frequência no noticiário, sobre tais disputas, elas ainda ocorrem (em menor intensidade do que em períodos passados) e muitas áreas industriais atualmente consolidadas, foram formadas após estados e municípios entrarem em disputas para abrigar grandes empresas, concedendo incentivos fiscais, financeiros e territoriais (que podem se somar a outras variáveis como proximidade a amplos mercados consumidores, a portos, ferrovias, etc.), que os fizeram vencer as disputas pela atração de determinadas empresas. Assim, realiza-se nesse processo o aprofundamento de uma forma de produção e organização do território que, cada vez mais, ocorre para servir e atender aos propósitos das corporações.</span></p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignleft size-full"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/08/Imagem-secundaria-3.png"><img loading="lazy" decoding="async" width="602" height="348" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/08/Imagem-secundaria-3.png" alt="" class="wp-image-2640"/></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda/RJ. A empresa foi privatizada no final da década de 1980 em um processo que envolveu demissões em massa, rompimento com empresas fornecedoras e compradoras e conflitos com a população local.</em></figcaption></figure></div>


<p>Ainda que se torne aceitável aos olhos da população, uma vez que é apresentado como a única forma de melhorar os índices econômicos e sociais do município, dos estados e do país, a implantação de grandes empresas nacionais e multinacionais em determinados territórios, não raramente, entra “em choque” com interesses de populações locais, que, além de verem seu modo de vida ser alterado, muitas vezes de forma drástica, também veem suas demandas específicas serem colocadas em segundo plano.</p>



<p>Para além dos impactos causados na vida da população, que não são apenas na geração de emprego e renda, a relação estabelecida entre o poder público e as empresas pode ser problemática. Os primeiros devem conceder e atender cada vez mais às “necessidades” de agentes externos que não têm fidelidade ao lugar, podendo mudar de localização se as condições deixarem de lhes ser vantajosas. Em outras palavras, os lugares têm que intensificar as condições que os fizeram atrair grandes empreendimentos e serem vantajosos à maior produtividade e lucratividade das empresas, em uma situação que poderíamos chamar de “extorsão contínua dos lugares” e de aprofundamento do uso corporativo do território, o que compromete recursos públicos que poderiam ter outros usos, mais alinhados às demandas da sociedade, sobretudo em um país tão desigual como o Brasil.</p>



<p>Além disso, e não menos importante, neste uso prioritário que as grandes empresas fazem do território e de sua influência na reorganização do espaço, há uma série de questões relacionadas à adaptação a interesses externos aos lugares, conflitos pelo uso do território, em muitos casos, ônus ambiental deixado para a sociedade, processos de reforço de diferenças e disparidades regionais, com partes do território sendo mais valorizadas do que outras. Sendo assim, evidencia-se a importância de realização e intensificação de estudos sobre o tema, buscando sempre ampliar o debate público de forma crítica, deixando claro que por trás da presença de multinacionais em nosso cotidiano, há inúmeras questões, econômicas, políticas, sociais e ambientais que, direta ou indiretamente, afetam a todos nós.</p>



<p></p>



<ul>
<li><strong>Leituras sugeridas</strong></li>
</ul>



<p>ALVES, Raquel M; TOLEDO, Márcio T. Densidades técnicas e&nbsp;normativas e&nbsp;o fortalecimento do&nbsp;uso corporativo do território no sul fluminense.&nbsp;<strong>Boletim Alfenense de Geografia</strong>,&nbsp; v. 3, n. 6, p. 58–79, 2023. DOI: 10.29327/243949.3.6-5. Acesso em: 1 maio. 2024.</p>



<p>IBAÑEZ, Pablo. <strong>Território e Guerra fiscal</strong>: A perversidade dos incentivos territoriais. 2006.174f. Dissertação (Mestrado em Geografia Humana) &#8211; Universidade de São Paulo (USP),&nbsp;São Paulo/SP. 2006.</p>



<p><strong>Para ouvir:</strong>&nbsp;Podcast do Joio e O Trigo, Prato Cheio, episódio especial intitulado “A Cidades das Marcas” (18 de abril de 2023). Disponível no site de “O Joio e O Trigo”, no Youtube e<strong>&nbsp;</strong>nas principais plataformas de áudio.</p>



<p></p>



<ul>
<li><strong>Sobre os autores</strong><strong></strong></li>
</ul>



<p>Raquel&nbsp;é mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei, e Márcio é professor do Departamento de Geociências&nbsp;da Universidade Federal de São João del-Rei.</p>
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		<title>A culpa é da chuva? Problemas do escoamento das águas na periferia da Região Metropolitana do Rio de Janeiro</title>
		<link>https://pangeia.ufrrj.br/a-culpa-e-da-chuva-problemas-do-escoamento-da-agua-na-periferia-da-regiao-metropolitana-do-rio-de-janeiro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Francisco]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Mar 2024 14:05:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades e Cotidianidades]]></category>
		<category><![CDATA[Recursos Hídricos]]></category>
		<category><![CDATA[Riscos ambientais]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanização]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://pangeia.ufrrj.br/?p=2434</guid>

					<description><![CDATA[<p>Era um domingo ensolarado de verão mas ao mesmo tempo nebuloso. Fui observar os estragos causados pela combinação de chuvas intensas e ineficiência do poder público na busca de soluções efetivas para o melhor escoamento das águas na bacia de drenagem do rio Botas, entre os municípios de Nova Iguaçu e Belford Roxo, um contribuinte [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-block-image">
<figure class="alignleft size-large is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/03/IMG-Sr-Luiz-1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="1024" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/03/IMG-Sr-Luiz-1-1024x1024.jpg" alt="" class="wp-image-2458" style="aspect-ratio:1;width:451px;height:auto" srcset="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/03/IMG-Sr-Luiz-1-1024x1024.jpg 1024w, https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/03/IMG-Sr-Luiz-1-300x300.jpg 300w, https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/03/IMG-Sr-Luiz-1-150x150.jpg 150w, https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/03/IMG-Sr-Luiz-1-768x768.jpg 768w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Morador retirando detritos acumulados em rua após chuvas intensas ocorridas em Fevereiro de 2024, Nova Iguaçu/RJ.</em></figcaption></figure></div>


<p>Era um domingo ensolarado de verão mas ao mesmo tempo nebuloso. Fui observar os estragos causados pela combinação de chuvas intensas e ineficiência do poder público na busca de soluções efetivas para o melhor escoamento das águas na bacia de drenagem do rio Botas, entre os municípios de Nova Iguaçu e Belford Roxo, um contribuinte do rio Iguaçu, integrante da Região Hidrográfica da Baía de Guanabara. Presenciei e registrei uma imagem que escancara a realidade: Sr. Assis, um idoso de 86 anos, desobstruindo a Rua Serra com as próprias mãos pra evitar que a sua casa fosse&nbsp;invadida com a próxima chuva intensa.</p>



<p>Preocupada com o tamanho dos matacões, blocos grandes de rochas, que ele tentava deslocar, e correndo muitos riscos de se machucar, fui ajudar a arrancar um tronco grande entre os detritos acumulados. Aproveitei para conversar e perguntar se viu aquela Serra ainda com mata/floresta no passado. Ele, morador da localidade há muitas décadas, me respondeu que sim, indicando onde havia plantação de laranjas e a parte&nbsp;onde ainda havia floresta e, além disso, afirmou que antes as águas da chuva não desciam com a rapidez e o volume de hoje.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/03/IMG-20240312-WA0002.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/03/IMG-20240312-WA0002.jpg" alt="" class="wp-image-2499" style="aspect-ratio:4/3;object-fit:cover;width:386px;height:auto"/></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Vista aérea da Baixada Fluminense. Ao fundo, observa-se o Maciço Gerecinó-Mendanha.</em></figcaption></figure></div>


<p>Não é preciso ir longe para conhecer a realidade ou buscar soluções. O Maciço Gericinó-Mendanha tem áreas protegidas por legislação Federal, as chamadas Unidades de Conservação (Área de Preservação Ambiental do Mendanha, Parque Estadual do Mendanha, Parque Natural Municipal da Serra do Mendanha e Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu) que, com a sua cobertura florestal, têm um papel essencial, entre outras finalidades, de absorver a água da chuva e reduzir a quantidade e a velocidade com que ela chega na parte debaixo, na planície, a mais impermeabilizada da cidade, com asfalto, concreto&nbsp;e&nbsp;todo tipo de superfície que impede a infiltração da água no solo.</p>



<p>O que falta para que projetos de recuperação florestal da Serra de Madureira sejam colocados em prática de forma ampla e efetiva? A recuperação da vegetação poderia trazer muitos benefícios, incluindo a geração de empregos e renda para moradores do entorno. Embora exista um projeto pontual que atua com participação voluntária (“Eles queimam, nós plantamos” &#8211; Instituto Educação Ambiental e Ecoturismo),&nbsp;e que mostra no próprio nome o desafio da recuperação da mata diante de ações&nbsp;criminosas&nbsp;constantes, outros projetos precisam ser incentivados e financiados, com ampliação para todas as vertentes, que têm solos já muito degradados, compactados pela citricultura, pastagens e,&nbsp;agora,&nbsp;fragilizados ainda mais&nbsp;por uma expansão urbana que também avança para as suas encostas.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignleft size-large is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/03/IMG-Igreja-1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="997" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/03/IMG-Igreja-1-1024x997.jpg" alt="" class="wp-image-2462" style="aspect-ratio:1.0270812437311936;width:415px;height:auto"/></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Rua danificada e repleta de detritos após chuvas intensas ocorridas em Fevereiro de 2024, Nova Iguaçu/RJ.</em></figcaption></figure></div>


<p>Proprietários ou invasores, além de não recuperarem a área, praticam formas de ocupação&nbsp;e uso do solo que prejudicam a condição das encostas, aumentando a ocorrência de deslizamentos de terra, cada vez mais frequentes, e contribuindo para que a água desça de forma cada vez mais violenta.&nbsp;&nbsp;Se não realocados,&nbsp;eles deveriam ser orientados para mudar as suas práticas, afinal a perpetuação de modos danosos de uso do solo&nbsp;nas&nbsp;encostas tende a agravar os episódios de enchentes, inundações e &nbsp;alagamentos na área urbana, submetendo toda a população a viver sob condições&nbsp;de risco&nbsp;cada vez mais frequentes&nbsp;e com maior gravidade. É evidente que isso não basta como solução para o problema, que é bem conhecido, particularmente&nbsp;na Baixada Fluminense. O abandono do Projeto Iguaçu, por exemplo, é uma realidade que precisa ser lembrada, sendo reconhecido como um projeto que contempla medidas que reduziriam o impacto dessas águas na área já intensamente urbanizada, drenada pelo rio Botas e afluentes.</p>



<p>Também sabemos que a bacia do rio Iguaçu-Sarapuí registra aumento de áreas construídas (urbanização) de 59,5% em 32 anos (1985-2017), o que corresponde aproximadamente ao aumento das áreas impermeáveis (55,6%).&nbsp;As superfícies de mata, solo e até pastagens e campos foram substituídas por asfalto e concreto. E, para piorar,&nbsp;tal processo ocorreu&nbsp;numa bacia hidrográfica que tem 32,24% de áreas com susceptibilidade à inundação (baixa, média e alta), segundo os dados do Serviço Geológico do Brasil. Esse processo de impermeabilização, resultante da expansão de construções, foi mais intenso justamente nas áreas mais susceptíveis, que&nbsp;compreendem&nbsp;17,43% da área de risco total.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-large is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/03/Imagem-Google-Maps-RMRJ-1.png"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="629" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/03/Imagem-Google-Maps-RMRJ-1-1024x629.png" alt="" class="wp-image-2465" style="aspect-ratio:1.6279809220985693;width:448px;height:auto"/></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Em destaque (linha pontilhada em vermelho) área onde está localizado o Maciço Gerecinó-Mendanha.</em></figcaption></figure></div>


<p>O mapeamento mais recente realizado pelo MAPBIOMAS sobre o ritmo da urbanização brasileira nos mostra que esse não é um problema exclusivo da Baixada Fluminense. No Brasil, entre 1985 e 2022, as áreas urbanizadas triplicaram de tamanho, passando de 1,2 para 3,7 milhões de hectares em 2022, sendo 3% dessa expansão em locais em&nbsp;situações de risco, como as encostas íngremes. Destacam, ainda, o avanço das áreas urbanizadas em terrenos próximos aos rios. Portanto, é necessário agir com urgência diante dessa realidade que nos desafia a cada dia e cobra responsabilidade, principalmente do poder público, que tem os recursos humanos, financeiros e técnicos para serem investidos. E não do Sr. Assis que,&nbsp;com o seu corpo já naturalmente enfraquecido pela idade, buscava&nbsp;desobstruir a&nbsp;rua que havia sido inundada, mostrando a força e a vontade que as autoridades responsáveis pelo ordenamento do território&nbsp;deveriam ter.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignleft size-large is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/03/IMG-Caminhonete-1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="1024" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/03/IMG-Caminhonete-1-1024x1024.jpg" alt="" class="wp-image-2467" style="aspect-ratio:1;width:424px;height:auto" srcset="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/03/IMG-Caminhonete-1-1024x1024.jpg 1024w, https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/03/IMG-Caminhonete-1-300x300.jpg 300w, https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/03/IMG-Caminhonete-1-150x150.jpg 150w, https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/03/IMG-Caminhonete-1-768x768.jpg 768w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Vista de parte da Serra do Mendanha, Nova Iguaçu/RJ. Área desmatada e com processos de erosão.</em></figcaption></figure></div>


<p>SIM, de acordo com os estudos climáticos, sabemos que a tendência é que os eventos chuvosos sejam cada vez mais frequentes e mais intensos, com poder de destruição cada vez maior! Mas, a culpa NÃO é exclusiva &#8220;da chuva&#8221;, como alguns insistem em afirmar por falta de informação ou quando é oportuno para se desviar de responsabilidades que lhes cabem. Mesmo em dias com volume menor de precipitação, o estrago tem sido enorme e repetitivo na vida de muitos moradores.</p>



<p>A água é fundamental para a nossa existência, sendo responsável por esculpir muitas entre as belas paisagens que admiramos, inclusive a desse imponente maciço, um relevo tão marcante na paisagem da Baixada da Guanabara. Um dia foi muito mais alto (3000 metros de altitude), ocupava uma área muito maior e teve apagado até os vestígios da verdadeira cratera do vulcão que um dia existiu há, aproximadamente, 65 milhões de anos. Essa água continua fazendo esse trabalho eficiente de modificá-lo, só que de forma diferente, agora com influência da ação do Ser Humano no “Antropoceno”, que acelera e intensifica os processos na superfície terrestre. A forma com que lidamos com ela diante dessa realidade é que precisa ser remediada para que não tenhamos que sentir medo ao olhar para um céu anunciando a próxima tempestade.</p>



<p></p>



<p></p>



<ul>
<li><strong>Referências de informações e dados citados</strong></li>
</ul>



<p>CRUTZEN, P.J. Geology of mankind. <strong>Nature</strong>, v. 415, p.23, 2002.</p>



<p>GOUDIE, A. S. The human impact in geomorphology – 50 years of change. <strong>Geomorphology</strong>, v. 366, p. 37-59, 2020.</p>



<p>MENEZES, W. A. <strong>A heterogeneidade e as mudanças na paisagem da bacia hidrográfica dos rios Iguaçu-Sarapuí (RJ) e seus efeitos nas inundações urbanas</strong>. 2018. 99 f. Dissertação (Mestrado em Geografia), Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Instituto Multidisciplinar. Nova Iguaçu, 2018.</p>



<p>MOTOKI, A.; SOARES, R.; NETTO, A.M.; SICHEL, S.E.; AIRES, J.R.; LOBATO, M. Reavaliação genética do modelo do Vulcão de Nova Iguaçu, RJ: origem eruptiva ou intrusão subvulcânica? <strong>Geociências, Rev. Esc. Minas</strong>, v.60, n.4, p. 584-592, 2007. DOI: <a href="https://doi.org/10.1590/S0370-44672007000400003"><u>https://doi.org/10.1590/S0370-44672007000400003</u></a></p>



<p>MOTOKI, A.; PETRAKIS, G.H.; SICHEL, S.E.; CARDOSO, C.E.; MELO, R. C.; SOARES, R.; MOTOKI, K.F. Origem dos relevos do maciço sienítico do Mendanha, RJ, com base nas análises geomorfológicas e sua relação com a hipótese do vulcão de Nova Iguaçu. <strong>G</strong><strong>eociências, UNESP</strong>, v.27, n.1, p. 97-113, 2008.</p>



<p>OLIVEIRA, E. O que o abandono do Projeto Iguaçu revela sobre a gestão de riscos urbanos no Rio de Janeiro? <strong>Jornal O ECO</strong>. Disponível em: &lt;<a href="https://oeco.org.br/reportagens/o-que-o-abandono-do-projeto-iguacu-revela-sobre-a-gestao-de-riscos-urbanos-no-rio-de-janeiro/?fbclid=IwAR1sLvojSii56YY5p9W1F4yV6orxELGVTwiP8KOd-CHLoG9albdCKL0p32Q"><u>https://oeco.org.br/reportagens/o-que-o-abandono-do-projeto-iguacu-revela-sobre-a-gestao-de-riscos-urbanos-no-rio-de-janeiro/?fbclid=IwAR1sLvojSii56YY5p9W1F4yV6orxELGVTwiP8KOd-CHLoG9albdCKL0p32Q</u></a>&nbsp;&gt; Acesso: 30 jan. 2024.</p>



<p>PROJETO MAPBIOMAS. <strong>Mapeamento anual de cobertura e uso da terra no Brasil entre 1985 a 2022</strong>&nbsp;– Coleção 8, Disponível em: &lt;<a href="https://brasil.mapbiomas.org/wp-content/uploads/sites/4/2023/10/FACT_Areas-Urbanas-no-Brasil_31.10_v2.pdf"><u>https://brasil.mapbiomas.org/wp-content/uploads/sites/4/2023/10/FACT_Areas-Urbanas-no-Brasil_31.10_v2.pdf</u></a>&gt;. Acesso: 1 mar. 2024.</p>



<ul>
<li><strong>Sobre a autora</strong></li>
</ul>



<p><em>Laura é Professora do Departamento de Geografia do Instituto Multidisciplinar da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.</em></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>“Revitalizações” urbanas: para além do embelezamento das cidades</title>
		<link>https://pangeia.ufrrj.br/revitalizacoes-urbanas-para-alem-do-embelezamento-das-cidades/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Francisco]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Mar 2024 17:04:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades e Cotidianidades]]></category>
		<category><![CDATA[Gentrificação]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanização]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Ao fazer uma breve análise sobre as principais formas de planejamento das cidades brasileiras e mundiais, constata-se cada vez mais a existência dos projetos de “re-…”&#160;(requalificação, renovação, refuncionalização), sendo o mais famoso o de revitalização urbana. Concomitantemente a imposição desses projetos, ascendem-se muitos questionamentos: quais são suas características gerais e os principais impactos para a [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-block-image">
<figure class="alignleft size-full is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/03/Imagem-Secundaria-Rio.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="1536" height="1024" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/03/Imagem-Secundaria-Rio.jpg" alt="" class="wp-image-2438" style="aspect-ratio:1.5;width:693px;height:auto"/></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Museu do Amanhã, Zona portuária da Cidade do Rio de Janeiro.</em></figcaption></figure></div>


<p>Ao fazer uma breve análise sobre as principais formas de planejamento das cidades brasileiras e mundiais, constata-se cada vez mais a existência dos projetos de “re-…”&nbsp;(requalificação, renovação, refuncionalização), sendo o mais famoso o de <em>revitalização urbana</em>. Concomitantemente a imposição desses projetos, ascendem-se muitos questionamentos: quais são suas características gerais e os principais impactos para a estrutura urbana e aos habitantes das cidades por eles contemplados.</p>



<p>As revitalizações podem ser definidas como planos urbanos caracterizados por ações pontuais e direcionadas ao embelezamento paisagístico, sendo o tipo mais recorrente entre os programas associados ao chamado “Planejamento Estratégico”. Trata-se da intervenção em áreas urbanas degradadas, especialmente os centros históricos, mediante a recuperação de patrimônios históricos em conjunto com a imposição de uma nova dinâmica econômica, social e cultural ao local.</p>



<p><span style="font-size: revert; text-align: justify; color: initial; font-family: Calibri;">As mudanças em locais específicos da cidade não se limitam a estrutura urbana, já que também influenciam no preço dos imóveis e nas funções desenvolvidas no local, ocasionando o aumento do custo de vida. Nesse contexto, quando não acompanhadas&nbsp;de ações de cunho social – como políticas habitacionais de interesse social – as revitalizações podem gerar alterações quanto as classes sociais que se apropriam da área, seja para moradia ou para o comércio e serviços. &nbsp;Via-de-regra, ocorre a substituição da população mais pobre pela de maior poder aquisitivo: processo esse denominado de </span><i style="font-size: revert; text-align: justify; color: initial;"><span style="font-family: Calibri;">gentrificação</span></i><span style="font-size: revert; text-align: justify; color: initial; font-family: Calibri;">.</span></p>



<p>A existência e ampliação da gentrificação fomenta a consolidação de outro problema urbano: a segregação socioespacial. Assim, passa-se&nbsp;a conferir a cada habitante um&nbsp;lugar na cidade, isso porque é o poder aquisitivo de cada pessoa que vai definir a área da&nbsp;cidade em que ela pode morar. Por isso, percebemos a existência de bairros de ricos, pobres e classe média, fato esse visível pelas condições e tipos de construções e pela presença ou ausência de equipamentos urbanos essenciais para a reprodução da vida.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/03/Imagem-Secundaria-Barcelona.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="988" height="551" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/03/Imagem-Secundaria-Barcelona.jpg" alt="" class="wp-image-2439" style="aspect-ratio:1.793103448275862;width:661px;height:auto"/></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Zona portuária de Barcelona, Espanha.</em></figcaption></figure></div>


<p>Chama a atenção que a gentrificação de hoje – originada principalmente pelos projetos de revitalizações urbanas – não se caracteriza como um fenômeno espontâneo das cidades. Na verdade, o processo faz parte de políticas urbanas pensadas e realizadas para transformar algumas áreas específicas das cidades. Tudo isso num cenário de competição entre as cidades que almejam a conquista de novos investimentos e consumidores.</p>



<p>A estratégia de retomada de investimentos em uma área da cidade depende das parcerias público-privadas. O passo inicial é feito pelo poder público, responsável por readquirir o interesse em centros históricos abandonados por meio de ações de melhorias paisagísticas e, muitas vezes, incentivos fiscais. Posteriormente, conta-se com a chegada de empresas privadas, que são estimuladas a&nbsp;se fixarem nessas áreas com o intuito de criar um dinamismo econômico, cultural e social, estimulando&nbsp;o turismo e a formação de um circuito cultural dotado de museus, galerias de arte, bares, restaurantes e cafés. Não à toa, opta-se normalmente pelos centros históricos, locais que sintetizam os valores culturais das cidades.</p>



<p>A imposição de novos usos e funções aos fragmentos urbanos contemplados pelas revitalizações faz parte de uma estratégia urbana articulada e global. São várias as cidades que definem esse tipo de projeto como o mais relevante para o seu progresso. Pode-se afirmar que a gênese dos planos de revitalização ocorreu em Baltimore (EUA), na década de 1970, onde as transformações urbanas caminhavam para a formação de um espetáculo urbano, focando na melhoria da paisagem urbana acompanhada de transformações socioespaciais.</p>



<p>Tal modelo foi se espalhando para outras cidades dos EUA e do mundo, como em Barcelona, Bilbao, Nova Iorque, Buenos Aires e Paris. O caso de Barcelona chama a atenção pelo amplo reconhecimento global; a cidade passou por grandes reformulações para sediar os Jogos Olímpicos de 1992, sobretudo quanto as melhorias de infraestrutura representada pela modernização de sua área portuária.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignleft size-full is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/03/Imagem-Secundaria-Salvador.png"><img loading="lazy" decoding="async" width="1587" height="880" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/03/Imagem-Secundaria-Salvador.png" alt="" class="wp-image-2440" style="aspect-ratio:1.803409090909091;width:671px;height:auto" srcset="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/03/Imagem-Secundaria-Salvador.png 1587w, https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2024/03/Imagem-Secundaria-Salvador-1536x852.png 1536w" sizes="(max-width: 1587px) 100vw, 1587px" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Centro histórico de Salvador, Bahia.</em></figcaption></figure></div>


<p>No Brasil a cidade do Rio de Janeiro foi uma das precursoras&nbsp;na adoção dos programas de revitalizações urbanas. Com influência direta dos planejadores de Barcelona, a cidade incorporou ações de retomada de investimentos em seu centro histórico no início dos anos 1990. Na última década, sob influência dos Jogos Olímpicos Rio 2016, criou-se o seu maior projeto de revitalização: o Porto Maravilha. Cidades como&nbsp;São Luís,&nbsp;Salvador, Curitiba, Santos, São Paulo, Fortaleza também estabeleceram inúmeros programas de revitalização no decorrer das últimas décadas. Aliás, é difícil pensar em uma cidade brasileira – metrópole ou cidade média – que não tenha adotado programas de revitalização, independentemente da região (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul).</p>



<p>Para finalizar, é importante destacar que revitalização não é sinônimo de gentrificação,&nbsp;ou vice-versa, mas que são fenômenos interrelacionados. Entretanto, quando os programas de revitalizações urbanas não são acompanhados de políticas de interesse social, pode-se assistir a uma grande reformulação no público que passa a se beneficiar das mudanças incorporadas ao espaço urbano. Desse modo, uma política de revitalização que seja inclusiva, deve também admitir e criar condições para que diferentes classes sociais e múltiplos usos do espaço urbano sejam possibilitados nas áreas que tornaram-se objeto de intervenção do poder público. De outra maneira, caso tal princípio não seja adotado, tende-se a forçar a saída da população pobre para áreas mais periféricas e/ou degradadas das cidades, onde passarão&nbsp;a conviver, novamente, com a escassez de equipamentos urbanos essenciais para a reprodução de suas vidas.</p>



<ul>
<li><strong><strong>Leituras sugeridas</strong></strong></li>
</ul>



<p>ARANTES, O; VAINER, C. B; MARICATO, E. <strong>A cidade do pensamento único: desmanchando consensos</strong>. Petrópolis: Vozes, 2000.</p>



<p>BIDOU-ZACHARIASEN, C. <strong>De volta a cidade: dos processos de gentrificação às políticas de “revitalização” dos centros urbanos</strong>. Coordenado por Catherine Bidou-Zachariesen com a colaboração de Daniel Hiernaux-Nicolas e Hélène Rivère d’Arc – São Paulo: Annablume, 2006. 294p.</p>



<p>COMITRE, F.&nbsp;&nbsp;<strong>Processo de revalorização da cidade de </strong><strong>S</strong><strong>antos-</strong><strong>SP</strong><strong>: O alegra centro e espaços de resistência</strong><strong>.</strong>&nbsp;2013. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Programa de Pós-Graduação em Geografia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Rio Claro/&nbsp;RJ, 2013.</p>



<p>SÁNCHEZ, F. <strong>A reinvenção das cidad</strong><strong>es para um mercado mundial</strong>. Chepecó: Argos, 2003.</p>



<ul>
<li><strong>Sobre o autor</strong></li>
</ul>



<p><em>Felipe é Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Paraná (IFPR), campus Pinhais.</em></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Contra o negacionismo, muita Geografia!</title>
		<link>https://pangeia.ufrrj.br/contra-o-negacionismo-muita-geografia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Francisco]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Nov 2023 17:28:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades e Cotidianidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://pangeia.ufrrj.br/?p=1999</guid>

					<description><![CDATA[<p>A atitude de “negar” a ciência sempre acompanhou a história dessa forma de conhecimento. Mas, primeiramente, é preciso ter claro qual o propósito geral da prática científica, a fim de entendermos melhor por que certos grupos (uma vez o ignorando) apresentam-se intolerantes aos seus produtos epistêmicos. A ciência é um tipo muito particular de conhecimento [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-block-image">
<figure class="alignleft size-full is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2023/11/Foto-Principal-Pixabay-Adaptada.png"><img loading="lazy" decoding="async" width="1920" height="1080" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2023/11/Foto-Principal-Pixabay-Adaptada.png" alt="" class="wp-image-2199" style="aspect-ratio:1.7777777777777777;width:746px;height:auto" srcset="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2023/11/Foto-Principal-Pixabay-Adaptada.png 1920w, https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2023/11/Foto-Principal-Pixabay-Adaptada-1536x864.png 1536w" sizes="(max-width: 1920px) 100vw, 1920px" /></a></figure></div>


<p>A atitude de “negar” a ciência sempre acompanhou a história dessa forma de conhecimento. Mas, primeiramente, é preciso ter claro qual o propósito geral da prática científica, a fim de entendermos melhor por que certos grupos (uma vez o ignorando) apresentam-se intolerantes aos seus produtos epistêmicos.</p>



<p>A ciência é um tipo muito particular de conhecimento por ser: <em>aproximativo</em>&nbsp;(apenas modela os fenômenos), <em>provisório</em>&nbsp;(é corrigido com o tempo) e <em>pragmático</em>&nbsp;(tende a ser útil ao saneamento de problemas práticos). Diante disso, como o imaginário popular em torno da ciência caricaturiza suas virtudes (ela seria “infalível” e, por essa razão, teria até um ar meio “arrogante”), acaba sendo natural que muitas expectativas se vejam frustradas quando ela (1) não responde tão prontamente às nossas demandas ou (2) quando ela apresenta dados que contradizem nossas convicções pessoais.</p>



<p>Esse panorama é importante, pois, em grande medida, a manifestação de movimentos negacionistas tem bastante a ver com o segundo tipo de reação; ou seja: a ciência é negada porque põe em xeque ideários em torno dos quais se reúnem, passionalmente, grupos que veem ameaçada sua visão de mundo – ideários, em geral, “extremos” (por exemplo, o de que a vontade do indivíduo deve primar sobre qualquer plano coletivo). Quanto àquele primeiro tipo de reação, em tese, ele é menos grave e pode ser reparado dentro de um projeto de educação científica com alguma carga teórica. Em outras palavras: uma boa formação sobre natureza da ciência instruiria, adequadamente, estudantes e professores. E, como resultado, teríamos cidadãos informados de que a prática científica prevê mesmo percalços e obstáculos. Mas o segundo caso é mais complicado porque, por conceito, as negações “obsessivas” são as que não estão dispostas ao contraditório – justo um tipo de postura que contrasta com os cânones de racionalidade objetiva: afirmações baseadas em evidência e abertura à refutação. (Lembrando, aliás, que dúvida e ceticismo são posturas inerentes ao “espírito crítico” que é peça-chave na dinâmica evolutiva da ciência; então, não se quer “proibir” o questionamento da ciência &#8230; como alegam, de modo oportunista, alguns grupos negacionistas).</p>



<p>O grau de difusão, por exemplo, das teorias conspiratórias (“<em>instituições poderosas não querem que saibamos a verdade&#8230;</em>”) sempre dependerá da existência, circunstancial, de canais que favoreçam o encontro de adesistas a elas. Por isso é que, contemporaneamente, dado o grande protagonismo das redes sociais, os grupos constituídos em função de algum ideário partilhado conseguem congregar um expressivo contingente de membros. Embora não se possa afirmar que esses grupos sejam homogêneos, é razoável supor que muitos de seus integrantes sejam preocupantemente vulneráveis a discursos retóricos e de baixo teor argumentativo.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2023/11/Foto-secundaria-Pixabay.png"><img loading="lazy" decoding="async" width="851" height="1280" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2023/11/Foto-secundaria-Pixabay.png" alt="" class="wp-image-2215" style="aspect-ratio:0.8310546875;object-fit:contain;width:533px;height:auto"/></a></figure></div>


<p>Uma vez que a sociedade brasileira ainda não conta com uma cultura científica robusta e bem disseminada – isto é, persiste junto ao grande público a ideia de que a ciência é um assunto técnico de exclusividade de seus profissionais –, o negacionismo tem sempre boas chances de recrutar em meio a essa população (na média, muito mal informada sobre a natureza da ciência) um contingente expressivo de pessoas que suspeitem de suas “reais intenções”. Um tipo de consequência nefasta é quando o ideário do pequeno grupo extravasa para a dimensão das atitudes práticas – gerando efeitos no seio da coletividade maior. Isso, de certa maneira, envolve ciências híbridas como a Geografia, porque questões ligadas à saúde e ao meio ambiente, por exemplo, têm sido alvo de contestação.</p>



<p>Relatórios embasados por instrumentos técnicos puderam revelar, há poucos anos, o avanço das queimadas na Amazônia. Ainda assim, houve quem quisesse negar o fato com a retórica de que a instituição científica divulgadora do dado estaria “ideologicamente comprometida”. Esse é um gênero de negacionismo de escala nacional que guarda correspondência com o popular questionamento sobre se estariam mesmo ocorrendo mudanças climáticas em escala global e se os fatores seriam antropogênicos. A sociedade precisa saber lidar mais estrategicamente com essas situações, pois se não há consciência e engajamento diante de problemas que afetam a todos, o grupo pode sofrer com a intransigência de uma minoria – sobretudo quando o problema em questão tem grande poder de difusividade. E vivemos isso na carne com a pandemia de Covid. &nbsp;</p>



<p>A ciência tem o predicado de acumular um grande número de conjecturas, aplicações, casos paradigmáticos e também insucessos. Tudo isso define um portentoso acervo de ideias e experiências que sempre é consultado quando problemas novos surgem. Como temos já muitos séculos de história científica, hoje em dia a resposta aos problemas não tarda a ser desenhada. O drama da pandemia ilustra bem isso. Porque foi em tempo recorde que as primeiras vacinas chegaram ao público. E, mesmo assim, não deixaram de se manifestar os movimentos antivacina.<strong></strong></p>



<p>Quanto à Geografia, em especial, volto a destacar sua condição de campo disciplinar de fronteira. Eu penso que uma ciência tipicamente socioambiental, como ela é, deveria ter a iniciativa de se apresentar com mais frequência na arena das discussões. Isto é, demonstrar que tem instrumentos e conceitos úteis para comunicar informação precisa e confiável sobre as relações econômico-ecológicas. Pessoalmente, vejo o geógrafo como um comunicador científico habilitado a instruir a população quanto aos aspectos regionais do uso de recursos. É claro que isso passa também por um desejo do próprio estudioso da Geografia em assumir compromisso ético e lógico com os critérios da cientificidade (principalmente, o de assentar suas alegações em sólido corpo de evidências). Sem isso, poderemos ter colegas de disciplina com potencial de serem fornecedores de conteúdo aos imaginários complotistas e conspiratórios. Os perigosos componentes do negacionismo.</p>





<ul>
<li><strong>Leituras sugeridas</strong></li>
</ul>



<p>PASTERNAK, N.; ORSI, C. <strong>Contra a realidade</strong>: a negação da ciência, suas causas e consequências. Campinas: Papirus, 2021.</p>



<p>SOUSA FILHO, A. de. “A terra é plana”: o obscurantismo cínico dos negacionistas. <strong>Inter-Legere</strong>. v. 3, n. 29, p. 1-30, 2020.</p>



<p>SILVA, M.; REIS JR, D. Ciência, obscurantismo e o papel potencial da Geografia em comunicação científica. <strong>Revista de Geografia.</strong>&nbsp;Juiz de Fora, V. 12, n. 1, p. 88-116, 2022.</p>



<ul>
<li><strong>Sobre o autor</strong><strong></strong></li>
</ul>



<p><em>Dante é Professor do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília.</em><em></em></p>
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		<title>China: a ascensão de uma nova potência mundial no século XXI</title>
		<link>https://pangeia.ufrrj.br/china-a-ascensao-de-uma-nova-potencia-mundial-no-seculo-xxi/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Francisco]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Nov 2023 16:57:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades e Cotidianidades]]></category>
		<category><![CDATA[China]]></category>
		<category><![CDATA[Geopolítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nos últimos 30 anos, o Mundo observa um crescente avanço da República Popular da China. Esse progresso é constatado em múltiplos elementos, principalmente nos indicadores socioeconômicos e pelo papel geopolítico, cada vez maior, que o país asiático tem exercido na arena política mundial. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), em 2000, o Produto Interno Bruto [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-block-image">
<figure class="alignleft size-full is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2023/11/Imagem-principal-Bandeira_Porto.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" width="1343" height="900" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2023/11/Imagem-principal-Bandeira_Porto.jpg" alt="" class="wp-image-2009" style="aspect-ratio:1.4922222222222221;width:683px;height:auto"/></a></figure></div>


<p>Nos últimos 30 anos, o Mundo observa um crescente avanço da República Popular da China. Esse progresso é constatado em múltiplos elementos, principalmente nos indicadores socioeconômicos e pelo papel geopolítico, cada vez maior, que o país asiático tem exercido na arena política mundial. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), em 2000, o Produto Interno Bruto (PIB) chinês era de US$ 1 trilhão. Em 2022, esse valor foi para US$ 18 trilhões, colocando o país como a segunda maior economia do planeta. Este é apenas um dado, de vários, que utilizamos para ilustrar tal evolução.</p>



<p>O desenvolvimento, as conquistas e a envergadura geopolítica da China contemporânea são frutos de um profundo processo de reforma política e econômica chinesa entre os anos de 1970 e 1980. &nbsp;As transformações na esfera política e econômica, promovida por Deng Xiaoping, Chen Yun e Zhao Ziyang – figuras importantes do Partido Comunista Chinês (PCCh) –, levaram o país de um comunismo centralizado para o chamado socialismo de mercado. As “modernizações” política e econômica dos chineses, no século passado, permitiram a integração econômica chinesa aos mercados globais através da “política de portas abertas” e a atração de inúmeras empresas estrangeiras para operarem nas chamadas Zonas Econômicas Especiais (ZEEs), inauguradas em 1980. Atualmente existem&nbsp;sete grandes ZEEs (Shenzhen, Zhuhai, Xiamen, Shantou, Hainan, Kashgar e Khorgas) e outras classificadas como Zonas de Desenvolvimento Econômico e Tecnológico Nacional, Zonas de Desenvolvimento Industrial de Alta Tecnologia, Zonas Piloto de Livre Comércio, <em>State-level New Areas</em>, Áreas Especiais de Fiscalização Aduaneira e Zonas de Cooperação Comercial Transfronteiriças.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2023/11/image-12.png"><img loading="lazy" decoding="async" width="575" height="407" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2023/11/image-12.png" alt="" class="wp-image-1986" style="aspect-ratio:1.4127764127764129;width:666px;height:auto"/></a></figure></div>


<p>A “política de portas abertas” proporcionou, pelo seu modelo de funcionamento, a abertura econômica, a liberalização do comércio exterior, o avanço tecnológico, o desenvolvimento e produção industrial em larga escala e a entrada de investimentos estrangeiros na China. Estes elementos foram importantes para o crescimento estável e organizado, por meio dos Planos Quinquenais, da economia chinesa, assim como, por alçá-la a posição de maior produtora industrial e consequentemente sua maior participação na estrutura econômica mundial ao longo dos séculos XX e XXI.</p>



<p>Desta maneira, na ótica dos dirigentes chineses, um país forte e estável no cenário interno era necessário para a construção de uma política externa robusta que permitisse que a China ocupasse o posto e exercesse o seu poder histórico, pela perspectiva do Confucionismo, de maior Nação do Mundo. A concepção deste desenvolvimento conjunto, dos cenários interno e externo, é a chave para a ideia da “ascensão pacífica” chinesa arquitetada especialmente durante o período da liderança política exercida por Hu Jintao, entre 2003 e 2013.</p>



<p>Tal ascensão pacífica é pautada por dois aspectos básicos: [a] o princípio básico das cinco regras de coexistência pacífica utilizado pela diplomacia chinesa desde meados dos anos 1950; [b] a criação de uma “comunidade de futuro compartilhado global”, onde todas as Nações, independente da sua força e tamanho, podem e devem ter o direito de&nbsp;participar das tomadas de decisões em assuntos de ordem mundial. Na perspectiva chinesa, questões globais não podem e não devem ser pautadas em resoluções feitas por um pequeno grupo de países ou blocos hegemônicos.</p>



<p>Além da coexistência pacífica e da comunidade global com futuro compartilhado, os chineses são adeptos do estabelecimento de acordos de cooperação benéficos para todas as partes envolvidas. Portanto, no último século, conforme a China progrediu internamente com a atração de capital externo, desenvolvimento industrial e o investimento massivo em educação, ciência, tecnologia, moradia e saúde, a demanda chinesa por recursos para atender o mercado externo aumentou significativamente. &nbsp;</p>



<p>Para suprir as necessidades internas, a China utiliza uma audaciosa estratégia geopolítica que é a criação de redes de infraestrutura Mundo afora. Através da chamada “Nova Rota da Seda”, também conhecida por <em>Belt and Road Initiative</em>&nbsp;(BRI) ou 带路 (em mandarim, Yidaiyilu), os chineses têm desenvolvido, mediante a acordos de cooperação, corredores econômicos transnacionais manifestados fisicamente nos territórios por ferrovias, rodovias, portos, gasodutos, oleodutos e outros projetos de energia e transporte que ligam o território chinês a outros territórios fundamentais para atender às suas demandas.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignleft size-full is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2023/11/image-13.png"><img loading="lazy" decoding="async" width="578" height="433" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2023/11/image-13.png" alt="" class="wp-image-1988" style="aspect-ratio:1.3348729792147807;width:678px;height:auto"/></a></figure></div>


<p>Tais corredores, além de fornecerem os recursos necessários e básicos para a produção industrial chinesa, também são utilizados para o escoamento de produtos, fabricados em território chinês, aos principais mercados consumidores do Mundo. Portanto, a China simultaneamente detém uma elevada produção industrial em seu território, que basicamente atende a todos os mercados consumidores, e desenvolve novos circuitos de circulação do capital em que ela não terá o controle total, pois, são estruturas geograficamente posicionadas em outros territórios, mas que ela certamente irá exercer um grande poder.</p>



<p>Desta maneira, o exercício de poder, a contestação e a relevância chinesa no cenário político e econômico mundial atual, são frutos de estratégias desenvolvimentistas meticulosamente pensadas para promover o progresso interno e externo, que devem ter limites, metas e objetivos. Tais estratégias ocorrem, em um primeiro momento, ainda no século XX, com a “política de portas abertas” e o processo de abertura econômica chinesa, abrigando empresas e o capital estrangeiro. Esses métodos de evolução econômico e político são reforçados com ascensão pacífica chinesa e o progresso socioeconômico que o país acumula desde, pelo menos, a primeira década deste século. É esta lógica, de crescimento multiescalar, de respeito à soberania e a promoção de política externa multilateral e pragmática, que garantem à China a sua centralidade cada vez maior no século XXI.</p>



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<ul>
<li><strong>Leituras sugeridas</strong></li>
</ul>



<p>JABBOUR, E.&nbsp;GABRIELLE, A.&nbsp;<strong>China</strong>: o socialismo do século XXI. São Paulo:&nbsp;Boitempo, 2021. &nbsp;&nbsp;</p>



<p>SANTOS, J. C. <strong>China na Ásia Central e a cooperação como código geopolítico</strong>. 2022. 163 f. Dissertação (Mestrado em Geografia) &#8211; Programa de Pós-Graduação em Geografia, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica/Nova Iguaçu, RJ, 2022.</p>



<ul>
<li><strong>Sobre o autor</strong></li>
</ul>



<p><em>Jonathan é graduado e mestre em Geografia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.</em><em></em></p>
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		<title>Por que os continentes se movem?</title>
		<link>https://pangeia.ufrrj.br/por-que-os-continentes-se-movem/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Francisco]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Nov 2023 14:13:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades e Cotidianidades]]></category>
		<category><![CDATA[Geologia]]></category>
		<category><![CDATA[Placas tectônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A resposta para essa pergunta é relativamente simples, mas para entender totalmente a “movimentação dos continentes” precisamos retornar aos tempos em que o Planeta Terra não era mais que uma “bola de fogo” orbitando o&#160;nosso&#160;Sol,&#160;isso&#160;logo&#160;depois que a poeira cósmica se juntou para o formar.&#160;Esse calor (energia) primordial produziu o magma, isto é, rochas fundidas em [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-block-image">
<figure class="alignleft size-full is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2023/11/Imagem-Principal-Texto.png"><img loading="lazy" decoding="async" width="590" height="319" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2023/11/Imagem-Principal-Texto.png" alt="" class="wp-image-2288" style="aspect-ratio:1.8495297805642634;width:598px;height:auto"/></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>&#8220;Este Planeta dinâmico&#8221;</em>. Serviço geológico dos EUA (2006).</figcaption></figure></div>


<p>A resposta para essa pergunta é relativamente simples, mas para entender totalmente a “movimentação dos continentes” precisamos retornar aos tempos em que o Planeta Terra não era mais que uma “bola de fogo” orbitando o&nbsp;nosso&nbsp;Sol,&nbsp;isso&nbsp;logo&nbsp;depois que a poeira cósmica se juntou para o formar.&nbsp;Esse calor (energia) primordial produziu o magma, isto é, rochas fundidas em temperatura extremamente alta.</p>



<p>Alguns poucos milhões de anos se passaram até que essas rochas começassem a esfriar na superfície terrestre em contato com a atmosfera primitiva, no entanto, logo abaixo da <em>crosta</em> (a camada mais externa da Terra), o magma ainda continuou tão quente e dinâmico quanto tinha sido nos primórdios, e ainda continua até hoje. Foi então, por causa dessa diferença de temperaturas e também da diferença de composição dos elementos entre o exterior e a parte interior, que surgiu a <em>litosfera</em>, uma “capa” externa composta de magma que esfriou e se solidificou, responsável por dar origem a um mosaico de grandes placas sobre as quais habitamos, onde repousam os continentes e acomodam-se os oceanos.</p>



<p>Situada logo abaixo da litosfera está uma camada composta de material relativamente fluido e aquecido a altas temperaturas que continua ativa, movimentando-se em diferentes direções e velocidades e permitindo que a litosfera flutue sobre ela. Essa camada aquecida a elevadas temperaturas pelo calor produzido no núcleo e que mantém as rochas em estado permanentemente semi-derretido, chama-se <em>astenosfera. </em>Dentro da astenosfera ocorrem <em>correntes convectivas</em>, responsáveis pela transferência de calor das camadas inferiores da Terra para as camadas superiores. Quando o magma é aquecido, ele perde densidade, fica “mais leve” e sobe, substituindo um pedaço mais frio e mais denso na parte superior. Esse movimento funciona com um “motor”, uma “ignição” para a movimentação dos continentes, pois cria um “efeito esteira” sob a litosfera, promove rachaduras nela, contribuindo para o surgimento das <em>placas tectônicas</em>, e permitindo que elas movimentem-se em diferentes direções.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2023/11/Mapa-Placas-tectonicas.png"><img loading="lazy" decoding="async" width="592" height="533" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2023/11/Mapa-Placas-tectonicas.png" alt="" class="wp-image-1975" style="aspect-ratio:1.1106941838649156;width:584px;height:auto"/></a></figure></div>


<p>Hoje é reconhecida a existência de 17 grandes placas tectônicas, além de outras menores, as quais, juntas, formam a litosfera. A mobilidade delas é que permite observarmos o chamado “tectonismo de placas”, que promove uma “dança dos continentes” que ocorre de forma diferente em cada parte do Planeta.</p>



<p>Em certos limites entre placas tectônicas predominam <em>movimentos divergentes</em>, que nada mais são do que a movimentação de duas placas em direções opostas, situação que pode ocorrer tanto no fundo do mar (crosta oceânica), a exemplo do que ocorre na zona central do Oceano Atlântico, como também no interior de um continente (crosta continental), conforme é observado na porção leste do continente Africano. No primeiro caso, o resultado desse processo de afastamento entre placas sob o oceano é a extrusão contínua de material magmático ao ponto de formar uma espécie de “cadeia montanhosa” extensa, a qual recebe o nome de <em>Dorsal Mesoceânica</em>, ou <em>Cadeia Meso-Atlântica</em>. No entanto, quando esse afastamento entre placas tectônicas ocorre no interior de um continente, o resultado é uma “fratura” na litosfera, e a “terra abre-se“, dando origem a uma forma de relevo denominado <em>Rift.</em> </p>



<p>Neste caso, importa frisar que, se tal movimento de distensão ou extensão da crosta permanecer ao longo do tempo (por milhares ou milhões de anos), a tendência é que mais cedo ou mais tarde o mar avance sobre essa área e uma nova bacia oceânica se forme, e até que esse continente se quebre e as duas partes sejam separadas. Vale ainda acrescentar que quando essa separação ocorre no continente, a movimentação das placas pode causar terremotos e até o aparecimento de vulcões. No oceano, a ascensão e derramamento de magma advindo do <em>manto </em>causa a expansão do assoalho oceânico.</p>



<p>Por sua vez, em outras áreas do Planeta os limites entre placas tectônicas podem apresentar outros comportamentos e, ao invés de estarem se separando, as placas estão convergindo. Os<em> limites convergentes</em>, ocorrem quando duas placas estão indo de encontro uma à outra, gerando áreas que, entre outras características, são marcadas pela maior frequência e intensidade dos terremotos. Em uma zona de convergência de placas, os resultados podem ser distintos, mas quando uma das placas é mais densa (geralmente a oceânica) do que a outra, ela afunda sob a placa menos densa (geralmente a continental), caracterizando o processo de <em>subducção</em>. Quando esse “mergulho” ocorre sob o oceano, zonas que apresentam grandes profundidades são formadas, dando origem às famosas (e, porque não dizer, mitológicas) <em>fossas oceânicas</em>, zonas submarinas ainda pouco exploradas e, portanto, pouco conhecidas pelo Ser Humano em função de sua grande profundidade e seu difícil acesso, como a Fossa das Marianas, localizadas no oceano pacífico, e que chega a apresentar 11 km de profundidade!</p>



<p>Por outro lado, quando duas placas tectônicas convergem e colidem em meio ao oceano (crosta oceânica), ocorre também a formação de “arcos de ilhas” junto às fossas oceânicas, onde é comum a presença de vulcões submarinos, ilhas vulcânicas e a&nbsp;formação de arquipélagos lineares que acompanham a faixa de encontro entre as placas tectônicas, tal como é o caso do arquipélago japonês, formado entre&nbsp;as&nbsp;placas&nbsp;do&nbsp;Pacífico, Filipina e Eurasiática.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignleft size-full is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2023/11/image-14.png"><img loading="lazy" decoding="async" width="604" height="257" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2023/11/image-14.png" alt="" class="wp-image-1991" style="aspect-ratio:2.350194552529183;width:635px;height:auto"/></a></figure></div>


<p>Ainda, em locais onde duas placas continentais colidem, o resultado pode ser a ocorrência de um grande processo de <em>dobramento </em>e <em>soerguimento </em>do relevo, isto é, a deformação e a elevação de uma grande área. Nessas regiões, além da ocorrência de grandes tremores de terra (sismos), a “deformação” da crosta terrestre leva ao surgimento de uma cadeia de montanhas. Esse fenômeno de dobramento e soerguimento é o que dá origem, por exemplo, aos famosos Alpes suíços, no continente europeu, e ao Himalaia, no continente asiático. Na América do Sul, a linear Cordilheira dos Andes resulta da colisão da Placa tectônica de Nazca com a Placa Sul-Americana, levando à formação tanto de uma fossa oceânica sob o mar, localizada relativamente próxima ao litoral, como dando origem a vulcões nesse ambiente tectônico com uma das maiores incidências de terremotos do planeta.</p>



<p>Diferentemente das situações acima descritas, existem ambientes tectônicos onde as placas continentais não se afastam e nem colidem, mas movimentam-se lateralmente, lado a lado uma da outra. Tratam-se das áreas de <em>limites conservativos (ou transformantes). </em>A Falha de Santo André, nos EUA, é um dos casos mais famosos, seja pela possibilidade de sua plena observação (é possível ver o ponto de contato das placas tectônicas à “olho nu”), seja por causa da grande <em>sismicidade </em>que causa no extremo oeste estadunidense.</p>



<p>As placas tectônicas são renovadas permanentemente, num “ciclo tectônico”. De certo modo, elas são “criadas” nas áreas de divergências de placas, como a Dorsal Meso-Atlântica, local onde o afastamento das placas permite a extrusão de magma, seu resfriamento e a formação da litosfera jovem. E são &#8220;destruídas&#8221; em zonas de convergência (como as fossas oceânicas, zonas de subducção), quando mergulham sob o manto e começam a ser fundidas aos poucos.</p>



<p>Ainda que lentamente, e nem sempre capturável a olhos nus ou pelo tempo da vida humana, as placas tectônicas (e os continentes que fazem parte delas) demonstram que se movem continuamente e, de tempos em tempos, seja através da observação atenta da paisagem (com suas cordilheiras elevadas e fossas oceânicas profundas), seja através dos terremotos (e tsunamis), a Terra nos lembra que ela é extremamente dinâmica.</p>



<p></p>



<ul>
<li><strong><strong>Leituras sugeridas</strong></strong></li>
</ul>



<p>CHRISTOPHERSON, R.&nbsp;W. <strong>Geossistemas</strong>: Uma Introdução à Geografia Física.&nbsp;Porto Alegre: Bookman Editora, 2012.</p>



<p>GROTZINGER, J.; JORDAN, T. <strong>Para Entender a Terra</strong>.&nbsp;Porto Alegre: &nbsp;Bookman Editora, 2013.</p>



<p>SIMKIN, T., TILLING, R. I., VOGT, P. R., KIRBY, S. H., KIMBERLY, P., &amp; STEWART, D. B.&nbsp;<strong>This Dynamic Planet</strong>: World Map of Volcanoes, Earthquakes, Impact Craters, and Plate&nbsp;Tectonics: US Geological Survey Geologic Investigations Map I-2800. SIPRE auger. Jon’s&nbsp;Machine Shop, v. 350, p. 99712-1007, 2006.</p>



<p>TEIXEIRA, W.; TOLEDO, M. C. M.; FAIRCHILD, T. R.; TAIOLI, F. <strong>Decifrando a terra</strong><strong>.</strong>&nbsp;São Paulo: Editora&nbsp;Oficina e Textos,&nbsp;2009.</p>



<ul>
<li><strong>Sobre o(s) autor(es)</strong> </li>
</ul>



<p><em>Luiza e João são graduandos em Geografia pelo Instituto Multidisciplinar da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, enquanto Laura é Professora d<em>o Departamento de Geografia do Instituto Multidisciplinar da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro</em>.</em></p>
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		<title>O que é migração? Conceitos, causas e escalas</title>
		<link>https://pangeia.ufrrj.br/o-que-e-migracao-conceitos-causas-e-escalas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Francisco]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Nov 2023 13:47:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades e Cotidianidades]]></category>
		<category><![CDATA[Migrações]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A palavra Migração designa toda e qualquer forma de deslocamento realizado por um ser vivo. Ao longo da história, pôde-se observar grandes movimentos migratórios realizados pelos seres humanos. Os motivos e as razões que levaram aos deslocamentos destes grandes contingentes populacionais pelo planeta foram e continuam sendo os mais diversos. Porém, de maneira geral, os fenômenos [&#8230;]</p>
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<p> </p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignleft size-full is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2023/11/image-3.png"><img loading="lazy" decoding="async" width="700" height="495" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2023/11/image-3.png" alt="" class="wp-image-1949" style="aspect-ratio:1.4141414141414141;width:770px;height:auto"/></a></figure></div>


<p>A palavra <em>Migração</em><strong> </strong>designa toda e qualquer forma de deslocamento realizado por um ser vivo. Ao longo da história, pôde-se observar grandes movimentos migratórios realizados pelos seres humanos. Os motivos e as razões que levaram aos deslocamentos destes grandes contingentes populacionais pelo planeta foram e continuam sendo os mais diversos. Porém, de maneira geral, os fenômenos migratórios podem ser classificados em dois grupos principais.</p>



<p>As <em>migrações voluntárias</em> dizem respeito aos deslocamentos que resultam de uma livre escolha do indivíduo, ou grupo de indivíduos. Normalmente, tem como motivação a busca por desfrutar de uma melhor qualidade de vida, isto é, estabelecer-se em um lugar capaz de oferecer benesses maiores do que aquelas que teriam acesso caso permanecessem onde já vivem. Não é raro conhecermos pessoas que optaram por se estabelecerem em outras cidades (ou países), devido as oportunidades de acessarem um emprego mais estável, obterem melhores salários, desfrutarem de amenidades (praias, clima, belezas cênicas), e/ou, simplesmente, a possibilidade de experimentarem uma vida mais pacata, serena, distante do conturbado cotidiano dos grandes centros urbanos, por exemplo.</p>



<p>Por sua vez, as <em>migrações forçadas</em> estão relacionadas aos graves problemas apresentados por um lugar e que comprometem a própria sobrevivência de uma pessoa ou grupo de pessoas, revelando assim a necessidade destes buscarem um novo destino, inclusive sob o risco de, caso assim não procederem, a própria vida desses indivíduos encontrar-se sob risco. Com frequência, alguns fatos e fenômenos de diferentes naturezas são responsáveis por desencadear este tipo de deslocamento forçado de populações. Esses são os casos da produção da miséria e da fome, a eclosão de guerras, as perseguições políticas e a ocorrência de catástrofes ambientais (terremotos, secas, tempestades etc) que obrigam muitas pessoas a abandonarem seu local de origem e buscarem um novo destino para viver.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignright size-full is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2023/11/image-1.png"><img loading="lazy" decoding="async" width="556" height="408" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2023/11/image-1.png" alt="" class="wp-image-1942" style="aspect-ratio:1.3627450980392157;width:683px;height:auto"/></a></figure></div>


<p>As migrações podem ocorrer em diversas <em>escalas</em>, receber nomes ou classificações específicas, mas sempre demonstram relações que lugares próximos ou distantes mantém entre si. Desse modo, os deslocamentos populacionais podem ser observados em <em>escala internacional</em>, envolver países, ou mesmo, continentes. Esse é o caso das <em>migrações “Sul-Norte”</em>, caracterizadas pelo vasto contingente de migrantes de países pobres ou subdesenvolvidos (predominantemente localizados no “sul do globo”) que buscam, de maneira legal ou ilegal, ingressar em países ricos, desenvolvidos (majoritariamente situados ao norte), almejando ter acesso a melhores condições de vida.</p>



<p>Também, no interior de um país (portanto, em <em>escala nacional</em>), é comum observarmos <em>migrações interregionais </em>(ou <em>interestaduais</em>). Estas comumente ocorrem quando são significativas as desigualdades econômicas e sociais entre as regiões de um país, motivando os habitantes das regiões mais pobres a migrarem para aqueles centros economicamente mais ricos e dinâmicos, ou para onde as oportunidades de emprego, renda e ascensão social são, aparentemente, mais promissoras (como as áreas de expansão da fronteira agropecuária e mineral, por exemplo).</p>



<p>Ademais, mesmo que não possa ser considerado como um fluxo migratório estabelecido exclusivamente em escala nacional, torna-se oportuno citar aqui o papel que outra dinâmica migratória assumiu (e ainda assume) para a definição dos movimentos da população no interior de um país. O <em>êxodo rural</em>, isto é, o deslocamento das pessoas do campo para as cidades (em razão da modernização da produção agropecuária e da industrialização, por exemplo) se constituiu num fenômeno migratório marcante em países como o Brasil, pois definiu um novo perfil da população, cada vez menos rural e cada vez mais urbana.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignleft size-full is-resized"><a href="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2023/11/image-16.png"><img loading="lazy" decoding="async" width="553" height="396" src="https://pangeia.ufrrj.br/wp-content/uploads/2023/11/image-16.png" alt="" class="wp-image-2012" style="aspect-ratio:1.3964646464646464;width:701px;height:auto"/></a></figure></div>


<p>Em <em>escala local</em>, e se constituindo em um fenômeno muito comum em contextos metropolitanos, um deslocamento regular de pessoas pode ser visto cotidianamente, revelando uma estreita relação entre o núcleo metropolitano (muitas vezes capitais de estados, ou polos regionais) e as cidades situadas ao seu redor. De modo a configurar um movimento semelhante ao de um “pêndulo”, grande número de pessoas deslocam-se todos os dias de suas casas, muitas vezes localizadas nas periferias urbanas, para o núcleo metropolitano em busca por cumprir suas jornadas de trabalho, realizar seus estudos, acessar equipamentos e serviços públicos, regressando para suas residências ao final do dia. Recebendo o nome de <em>migração pendular</em>,&nbsp;esses deslocamentos constantes “de casa para o trabalho”, “de casa para a faculdade”, “de casa para os serviços públicos”, demonstram como esse “vai-e-vem” de pessoas, essa forma específica de migração, faz parte da rotina diária de muitos que habitam espaços densamente urbanizados.</p>



<p>Por fim, mas não menos importante, cabe esclarecer a diferença aparentemente sutil entre duas palavras frequentemente utilizadas para definir a condição da pessoa migrante. Atribui-se a palavra <em>emigrante</em>&nbsp;(com E) a todos aqueles que emigram, isto é, saem ou deixam seu lugar de origem (país ou estado) em direção a um novo destino. Por outro lado, <em>imigrante</em>&nbsp;(com I) compreende todos aqueles que, vindos de “fora”, ingressam em um lugar novo, não sendo, portanto, dali nativos ou naturais. Assim, a mesma pessoa que migra (ou seja, que parte de um lugar para outro), constitui-se em um <em>emigrante</em>&nbsp;em sua terra de origem (pois de lá saiu), e em um <em>imigrante </em>no seu lugar de destino (pois, vindo de “fora”, ali ingressou e busca se estabelecer).</p>



<p class="has-white-color has-text-color">.</p>



<ul>
<li><strong>Leituras sugeridas</strong></li>
</ul>



<p></p>



<p>BRUMES, K. R.; SILVA, M.&nbsp;A migração sob diversos contextos. <strong>Boletim de Geografia</strong>,&nbsp;Maringá,&nbsp;v. 29, n. 1, p. 123-133, 2011.</p>



<p>LEAL, L. <strong>A emigração de brasileiros para os EUA</strong>: Sonhos, permanências e frustrações. &nbsp;Monografia (Graduação em Geografia). Instituto Multidisciplinar, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, p. 49, 2023.</p>



<p>NOLASCO, C. <strong>Migrações Internacionais</strong>: Conceitos, Tipologias e Teorias. Oficina Nº 434. Centro de Estudos Sociais, Coimbra, 2016.</p>



<p>SALGADO, Sebastião. <strong>Êxodos</strong>. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.</p>



<p>_____. <strong>Terra</strong>. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.</p>



<p>SCARLATO, F. População e urbanização brasileira. In: ROSS, J. <strong>Geografia do Brasil</strong>. São Paulo: EDUSP, 2001, p. 381-463.</p>



<p>SOUSA, A. Geografia e&nbsp;mobilidade: primeiras aproximações. <strong>Brazilian Geographical Journa</strong>l, Ituiutaba, v. 11, n. 1, p. 240–245, 2020.</p>



<ul>
<li><strong>Sobre os autores</strong></li>
</ul>



<p><em>Cecília e Nathan são graduandos em Geografia pelo Instituto Multidisciplinar da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, enquanto Francisco é Professor do Departamento de Geografia do Instituto Multidisciplinar da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro</em>.</p>
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