Imagem principal

No romance “Gabriela”, o protagonismo de uma região

Gabriela, Cravo e Canela. Editora Record, 1958.

A obra “Gabriela, Cravo e Canela” foi escrita pelo romancista baiano Jorge Amado e teve sua publicação no ano de 1958. A narrativa é ambientada na década de 1920 e discorre sobre a vida da população da cidade de Ilhéus, localizada no Sul do estado da Bahia. Seu enredo relata um contexto de disputas pela modernização da cidade, e explora os conflitos entre a tradicional elite regional (cacaicultores) e os grupos sociais emergentes (comerciantes e exportadores de cacau).

Jorge Amado, filho do fazendeiro de cacau João Amado de Faria e de Eulália Leal Amado, nasceu em 10 de agosto de 1912, na fazenda Auricídia, no distrito de Ferradas, localizada no município de Itabuna. Durante seus estudos no Ginásio Ipiranga, em Salvador, começou a trabalhar em jornais e a participar da vida literária, sendo um dos fundadores da Academia dos Rebeldes. Formou-se pela Faculdade Nacional de Direito, no Rio de Janeiro, em 1935. Militante Comunista, foi obrigado a exilar-se na Argentina e Uruguai entre 1941 e 1942, período em que fez longa viagem pela América Latina. Em 1945, foi eleito deputado federal pelo estado de São Paulo e foi autor da lei, ainda hoje em vigor, que assegura o direito à liberdade de culto religioso. Amado faleceu em Salvador, no dia 6 de agosto de 2001.

Em “Gabriela, Cravo e Canela” é possível observar que, através do avanço da produção cacaueira, Ilhéus passa a comandar a economia regional. Isso proporciona uma expansão urbana, o desenvolvimento do comércio e dos meios de transporte, além do interesse, por parte de alguns comerciantes, pela construção do porto de Ilhéus, com o objetivo de dinamizar a exportação do cacau. A obra aborda as mudanças no contexto social e econômico de uma região que, ao longo do tempo, passou a ser conhecida, popularmente, como a “terra do cacau”.

O enredo é, particularmente, centrado no período entre as safras de 1925 e 1926. O autor explica que se tratou de um ano marcado por acontecimentos decisivos na vida da região, como, por exemplo, o “caso da barra”, a luta política entre o exportador de cacau, Mundinho Falcão, e o velho cacique local, coronel Ramiro Bastos, além do julgamento do coronel Jesuíno Mendonça e a chegada do primeiro navio estrangeiro ao porto de Ilhéus, iniciando, assim, a exportação direta do cacau.

A importância do cacau para o funcionamento de Ilhéus fica explícita durante toda o texto. Amado inicia a narrativa descrevendo a prosperidade local, resultante da circulação do dinheiro proveniente da produção cacaueira. Em suas palavras: “A cultura do cacau dominava todo o sul do estado da Bahia, não havia lavoura mais lucrativa, as fortunas cresciam, crescia Ilhéus, capital do cacau” (AMADO, 2012, p. 20).

Fonte: Fundação Casa de Jorge Amado.

Rita Santos (2017)  explica que a região cacaueira pode ser pensada tanto em sua materialidade, isto é, através de sua construção histórica, como, também, a partir do seu simbolismo, ou seja, por meio das imagens e representações construídas sobre ela. Daí poder-se falar na região como sendo um verdadeiro artefato (HAESBAERT, 2010), dado o Sul baiano poder ser compreendido como uma realidade concreta e, ao mesmo tempo, inserir-se no campo simbólico, mítico, a partir dos significados e sentidos a ela atribuídos. 

Sabemos que o conceito de região possui diferentes concepções, vindo a dificultar o estabelecimento de um sentido único para o termo. Entretanto, ainda que a palavra região possa ser empregada na representação de diversos fenômenos – desde a localização de um grupo social com um modo de vida próprio, até a identificação de um ambiente natural dotado de aspectos físicos únicos – existe um relativo consenso de que o termo “região” refere-se, quase sempre, à existência de uma porção do espaço (seja ele global, nacional ou local) dotada de características sociais, econômicas, políticas ou naturais únicas, distintas das demais (HAESBAERT, 2010).

Diante disso, pode-se afirmar que, na obra em tela, Jorge Amado descreve a região, seus habitantes e tradições de modo a revelar as características e a identidade do Sul baiano, alçando Ilhéus e seu entorno à condição de “personagens” centrais do romance. Narra-se a riqueza produzida pela economia cacaueira, seu impulso ao desenvolvimento da região, o progresso urbano de Ilhéus, mas, também, a violência, os conflitos e as lutas pelo poder local erigidas em meio à constituição de uma “civilização do cacau” (FUSER, 2021).

Vale ressaltar que, por ser considerada ficção, a literatura demorou um certo tempo para ser reconhecida pela ciência como um campo relevante de estudos. Contudo, cada vez mais, a Geografia tem dirigido atenção para a Literatura por sua visão sobre as regiões, paisagens e lugares, importantes conceitos para essa disciplina. Cabe salientar que a própria obra literária é resultado de processos geográficos, sociais, históricos, políticos, econômicos e culturais. Por isso, faz-se pertinente para a ciência se valer da interdisciplinaridade e de outras formas de linguagem e conhecimento para a obtenção de uma compreensão mais ampla, lúdica e crítica da realidade.

A Literatura do sul baiano, também conhecida como Literatura Grapiúna, pode ser considerada um documento que expressa simbolicamente uma realidade social e uma época, pois articula ficção e contexto histórico em seus textos. Essa Literatura evidencia práticas sociais consideradas particulares, e tem como objetivo revelar a coesão política, econômica e cultural que contribuiu para a construção e existência de uma “civilização do cacau”. Seus textos são fundamentais para a compreensão do olhar que se teve e ainda se tem sobre o Sul baiano, bem como foi essencial para a formação da imagem que a sociedade cacaueira fez de si mesma. Ainda, tornou-se importante propaganda dessa região, tendo contribuído para a construção de uma imagem mística que, ainda hoje permeia o imaginário popular (brasileiro e mundial) sobre o Sul baiano. 

Ademais, deve-se destacar que a aproximação entre Ciência e Literatura, através da análise de obras literárias, contribui para o enriquecimento e a melhor compreensão de temas, conceitos e problemas abordados sistematicamente pela Geografia e disciplinas afins. Ao constituir-se em um texto que, frequentemente, apresenta uma linguagem simples, acessível a um público maior, as obras literárias podem ser vistas como fontes de informação, no mínimo, muito agradáveis aos leitores. Por apresentar tal característica e, por vezes, cativar o leitor através das tramas e enredos ficcionais, esses textos acabam então constituindo-se em um instrumento valioso para a imersão em realidades e problemas que, não raramente, apresentam-se como sendo de difícil alcance para muitas pessoas, mas cuja a obra ficcional, a seu modo, trata de aproxima-los dos leitores.

  • Referências

AMADO, Jorge. Gabriela, Cravo e Canela: crônica de uma cidade do interior. 2° ed. São Paulo: Companhia das Letras,2012.

ARAÚJO, Bruna E.F.de A. Região e Regionalismo na obra “Gabriela, Cravo e Canela” de Jorge Amado. 2022. Monografia (Licenciatura Plena em Geografia) – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – Instituto Multidisciplinar (UFRRJ- IM), Nova Iguaçu/RJ, 2022.

FUSER, Lucivânia Nascimento dos Santos. Marxismo e nacionalismo na obra de Jorge Amado sobre a região cacaueira. Revista Espaço Acadêmico, Paraná, n.229, p. 198-209, jul./ago.2021.

HAESBAERT, Rogério. Regional-global: Dilemas da Região e Regionalização na Geografia contemporânea. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.

SANTOS, Rita de Cássia Evangelista dos. A região cacaueira da Bahia em Jorge Amado: memória, imaginação e identidade pelo prisma da geoliteratura. Dissertação (Mestrado em Geografia)-Universidade Federal de Goiás. Goiânia, p.158.2017.

ROCHA, Lurdes Bertol. A Região Cacaueira da Bahia: uma abordagem fenomenológica. 2006. 290 p. Tese (Doutorado em geografia) – Universidade Federal de Sergipe, Aracaju, 2006.

  • Sobre a autora

Bruna é graduada em Geografia pelo Instituto Multidisciplinar da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Mapa mental retângulo - Agroecologia

Agroecologia: para quê serve?

Por que é importante pensar em uma agricultura que contribua com a conservação da natureza e seja socialmente mais justa? O que é a agroecologia? Qual a sua real relevância? Nesse material produzido pela Equipe do Pangeia para a seção Gotas de Conhecimento, abordaremos a multiplicidade de tipos de produções agroecológicas, e destacaremos a importância delas para a valorização da vida, o equilíbrio ambiental e a promoção da justiça social no campo.

Mapa mental Retangulo

Terras Indígenas: para quê servem?

Afinal, o que são Terras indígenas? Quais funções desempenham? Como essas áreas estão distribuídas pelo território brasileiro? Como a proteção dessas terras beneficia não apenas os povos indígenas, mas toda a sociedade? Neste material produzido pela Equipe do Pangeia para a seção Gotas de Conhecimento, verá que o reconhecimento e a demarcação oficial dessas terras é um direito dos povos indígenas, e possibilita a esses dignidade para que possam manter sua identidade e seus modos tradicionais de vida.

Mapa mental Retângulo - AVUs

Áreas Verdes Urbanas: para quê servem?

Poderiam as cidades brasileiras possuírem mais áreas verdes? Além do embelezamento paisagístico que proporcionam, quais os papéis ecológicos, ambientais e sociais que essas áreas desempenham no espaço urbano? Neste material produzido pela Equipe do Pangeia para a seção Gotas de Conhecimento, você verá o valor que praças, bosques e jardins públicos desempenham para o alcance de uma melhor qualidade de vida nas cidades.

IMG-Sr Luiz (1) (2)

A culpa é da chuva? Problemas do escoamento das águas na periferia da Região Metropolitana do Rio de Janeiro

Morador retirando detritos acumulados em rua após chuvas intensas ocorridas em Fevereiro de 2024, Nova Iguaçu/RJ.

Era um domingo ensolarado de verão mas ao mesmo tempo nebuloso. Fui observar os estragos causados pela combinação de chuvas intensas e ineficiência do poder público na busca de soluções efetivas para o melhor escoamento das águas na bacia de drenagem do rio Botas, entre os municípios de Nova Iguaçu e Belford Roxo, um contribuinte do rio Iguaçu, integrante da Região Hidrográfica da Baía de Guanabara. Presenciei e registrei uma imagem que escancara a realidade: Sr. Assis, um idoso de 86 anos, desobstruindo a Rua Serra com as próprias mãos pra evitar que a sua casa fosse invadida com a próxima chuva intensa.

Preocupada com o tamanho dos matacões, blocos grandes de rochas, que ele tentava deslocar, e correndo muitos riscos de se machucar, fui ajudar a arrancar um tronco grande entre os detritos acumulados. Aproveitei para conversar e perguntar se viu aquela Serra ainda com mata/floresta no passado. Ele, morador da localidade há muitas décadas, me respondeu que sim, indicando onde havia plantação de laranjas e a parte onde ainda havia floresta e, além disso, afirmou que antes as águas da chuva não desciam com a rapidez e o volume de hoje.

Vista aérea da Baixada Fluminense. Ao fundo, observa-se o Maciço Gerecinó-Mendanha.

Não é preciso ir longe para conhecer a realidade ou buscar soluções. O Maciço Gericinó-Mendanha tem áreas protegidas por legislação Federal, as chamadas Unidades de Conservação (Área de Preservação Ambiental do Mendanha, Parque Estadual do Mendanha, Parque Natural Municipal da Serra do Mendanha e Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu) que, com a sua cobertura florestal, têm um papel essencial, entre outras finalidades, de absorver a água da chuva e reduzir a quantidade e a velocidade com que ela chega na parte debaixo, na planície, a mais impermeabilizada da cidade, com asfalto, concreto e todo tipo de superfície que impede a infiltração da água no solo.

O que falta para que projetos de recuperação florestal da Serra de Madureira sejam colocados em prática de forma ampla e efetiva? A recuperação da vegetação poderia trazer muitos benefícios, incluindo a geração de empregos e renda para moradores do entorno. Embora exista um projeto pontual que atua com participação voluntária (“Eles queimam, nós plantamos” – Instituto Educação Ambiental e Ecoturismo), e que mostra no próprio nome o desafio da recuperação da mata diante de ações criminosas constantes, outros projetos precisam ser incentivados e financiados, com ampliação para todas as vertentes, que têm solos já muito degradados, compactados pela citricultura, pastagens e, agora, fragilizados ainda mais por uma expansão urbana que também avança para as suas encostas.

Rua danificada e repleta de detritos após chuvas intensas ocorridas em Fevereiro de 2024, Nova Iguaçu/RJ.

Proprietários ou invasores, além de não recuperarem a área, praticam formas de ocupação e uso do solo que prejudicam a condição das encostas, aumentando a ocorrência de deslizamentos de terra, cada vez mais frequentes, e contribuindo para que a água desça de forma cada vez mais violenta.  Se não realocados, eles deveriam ser orientados para mudar as suas práticas, afinal a perpetuação de modos danosos de uso do solo nas encostas tende a agravar os episódios de enchentes, inundações e  alagamentos na área urbana, submetendo toda a população a viver sob condições de risco cada vez mais frequentes e com maior gravidade. É evidente que isso não basta como solução para o problema, que é bem conhecido, particularmente na Baixada Fluminense. O abandono do Projeto Iguaçu, por exemplo, é uma realidade que precisa ser lembrada, sendo reconhecido como um projeto que contempla medidas que reduziriam o impacto dessas águas na área já intensamente urbanizada, drenada pelo rio Botas e afluentes.

Também sabemos que a bacia do rio Iguaçu-Sarapuí registra aumento de áreas construídas (urbanização) de 59,5% em 32 anos (1985-2017), o que corresponde aproximadamente ao aumento das áreas impermeáveis (55,6%). As superfícies de mata, solo e até pastagens e campos foram substituídas por asfalto e concreto. E, para piorar, tal processo ocorreu numa bacia hidrográfica que tem 32,24% de áreas com susceptibilidade à inundação (baixa, média e alta), segundo os dados do Serviço Geológico do Brasil. Esse processo de impermeabilização, resultante da expansão de construções, foi mais intenso justamente nas áreas mais susceptíveis, que compreendem 17,43% da área de risco total.

Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Em destaque (linha pontilhada em vermelho) área onde está localizado o Maciço Gerecinó-Mendanha.

O mapeamento mais recente realizado pelo MAPBIOMAS sobre o ritmo da urbanização brasileira nos mostra que esse não é um problema exclusivo da Baixada Fluminense. No Brasil, entre 1985 e 2022, as áreas urbanizadas triplicaram de tamanho, passando de 1,2 para 3,7 milhões de hectares em 2022, sendo 3% dessa expansão em locais em situações de risco, como as encostas íngremes. Destacam, ainda, o avanço das áreas urbanizadas em terrenos próximos aos rios. Portanto, é necessário agir com urgência diante dessa realidade que nos desafia a cada dia e cobra responsabilidade, principalmente do poder público, que tem os recursos humanos, financeiros e técnicos para serem investidos. E não do Sr. Assis que, com o seu corpo já naturalmente enfraquecido pela idade, buscava desobstruir a rua que havia sido inundada, mostrando a força e a vontade que as autoridades responsáveis pelo ordenamento do território deveriam ter.

Vista de parte da Serra do Mendanha, Nova Iguaçu/RJ. Área desmatada e com processos de erosão.

SIM, de acordo com os estudos climáticos, sabemos que a tendência é que os eventos chuvosos sejam cada vez mais frequentes e mais intensos, com poder de destruição cada vez maior! Mas, a culpa NÃO é exclusiva “da chuva”, como alguns insistem em afirmar por falta de informação ou quando é oportuno para se desviar de responsabilidades que lhes cabem. Mesmo em dias com volume menor de precipitação, o estrago tem sido enorme e repetitivo na vida de muitos moradores.

A água é fundamental para a nossa existência, sendo responsável por esculpir muitas entre as belas paisagens que admiramos, inclusive a desse imponente maciço, um relevo tão marcante na paisagem da Baixada da Guanabara. Um dia foi muito mais alto (3000 metros de altitude), ocupava uma área muito maior e teve apagado até os vestígios da verdadeira cratera do vulcão que um dia existiu há, aproximadamente, 65 milhões de anos. Essa água continua fazendo esse trabalho eficiente de modificá-lo, só que de forma diferente, agora com influência da ação do Ser Humano no “Antropoceno”, que acelera e intensifica os processos na superfície terrestre. A forma com que lidamos com ela diante dessa realidade é que precisa ser remediada para que não tenhamos que sentir medo ao olhar para um céu anunciando a próxima tempestade.

  • Referências de informações e dados citados

CRUTZEN, P.J. Geology of mankind. Nature, v. 415, p.23, 2002.

GOUDIE, A. S. The human impact in geomorphology – 50 years of change. Geomorphology, v. 366, p. 37-59, 2020.

MENEZES, W. A. A heterogeneidade e as mudanças na paisagem da bacia hidrográfica dos rios Iguaçu-Sarapuí (RJ) e seus efeitos nas inundações urbanas. 2018. 99 f. Dissertação (Mestrado em Geografia), Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Instituto Multidisciplinar. Nova Iguaçu, 2018.

MOTOKI, A.; SOARES, R.; NETTO, A.M.; SICHEL, S.E.; AIRES, J.R.; LOBATO, M. Reavaliação genética do modelo do Vulcão de Nova Iguaçu, RJ: origem eruptiva ou intrusão subvulcânica? Geociências, Rev. Esc. Minas, v.60, n.4, p. 584-592, 2007. DOI: https://doi.org/10.1590/S0370-44672007000400003

MOTOKI, A.; PETRAKIS, G.H.; SICHEL, S.E.; CARDOSO, C.E.; MELO, R. C.; SOARES, R.; MOTOKI, K.F. Origem dos relevos do maciço sienítico do Mendanha, RJ, com base nas análises geomorfológicas e sua relação com a hipótese do vulcão de Nova Iguaçu. Geociências, UNESP, v.27, n.1, p. 97-113, 2008.

OLIVEIRA, E. O que o abandono do Projeto Iguaçu revela sobre a gestão de riscos urbanos no Rio de Janeiro? Jornal O ECO. Disponível em: <https://oeco.org.br/reportagens/o-que-o-abandono-do-projeto-iguacu-revela-sobre-a-gestao-de-riscos-urbanos-no-rio-de-janeiro/?fbclid=IwAR1sLvojSii56YY5p9W1F4yV6orxELGVTwiP8KOd-CHLoG9albdCKL0p32Q > Acesso: 30 jan. 2024.

PROJETO MAPBIOMAS. Mapeamento anual de cobertura e uso da terra no Brasil entre 1985 a 2022 – Coleção 8, Disponível em: <https://brasil.mapbiomas.org/wp-content/uploads/sites/4/2023/10/FACT_Areas-Urbanas-no-Brasil_31.10_v2.pdf>. Acesso: 1 mar. 2024.

  • Sobre a autora

Laura é Professora do Departamento de Geografia do Instituto Multidisciplinar da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Imagem Principal

“Revitalizações” urbanas: para além do embelezamento das cidades

Museu do Amanhã, Zona portuária da Cidade do Rio de Janeiro.

Ao fazer uma breve análise sobre as principais formas de planejamento das cidades brasileiras e mundiais, constata-se cada vez mais a existência dos projetos de “re-…” (requalificação, renovação, refuncionalização), sendo o mais famoso o de revitalização urbana. Concomitantemente a imposição desses projetos, ascendem-se muitos questionamentos: quais são suas características gerais e os principais impactos para a estrutura urbana e aos habitantes das cidades por eles contemplados.

As revitalizações podem ser definidas como planos urbanos caracterizados por ações pontuais e direcionadas ao embelezamento paisagístico, sendo o tipo mais recorrente entre os programas associados ao chamado “Planejamento Estratégico”. Trata-se da intervenção em áreas urbanas degradadas, especialmente os centros históricos, mediante a recuperação de patrimônios históricos em conjunto com a imposição de uma nova dinâmica econômica, social e cultural ao local.

As mudanças em locais específicos da cidade não se limitam a estrutura urbana, já que também influenciam no preço dos imóveis e nas funções desenvolvidas no local, ocasionando o aumento do custo de vida. Nesse contexto, quando não acompanhadas de ações de cunho social – como políticas habitacionais de interesse social – as revitalizações podem gerar alterações quanto as classes sociais que se apropriam da área, seja para moradia ou para o comércio e serviços.  Via-de-regra, ocorre a substituição da população mais pobre pela de maior poder aquisitivo: processo esse denominado de gentrificação.

A existência e ampliação da gentrificação fomenta a consolidação de outro problema urbano: a segregação socioespacial. Assim, passa-se a conferir a cada habitante um lugar na cidade, isso porque é o poder aquisitivo de cada pessoa que vai definir a área da cidade em que ela pode morar. Por isso, percebemos a existência de bairros de ricos, pobres e classe média, fato esse visível pelas condições e tipos de construções e pela presença ou ausência de equipamentos urbanos essenciais para a reprodução da vida.

Zona portuária de Barcelona, Espanha.

Chama a atenção que a gentrificação de hoje – originada principalmente pelos projetos de revitalizações urbanas – não se caracteriza como um fenômeno espontâneo das cidades. Na verdade, o processo faz parte de políticas urbanas pensadas e realizadas para transformar algumas áreas específicas das cidades. Tudo isso num cenário de competição entre as cidades que almejam a conquista de novos investimentos e consumidores.

A estratégia de retomada de investimentos em uma área da cidade depende das parcerias público-privadas. O passo inicial é feito pelo poder público, responsável por readquirir o interesse em centros históricos abandonados por meio de ações de melhorias paisagísticas e, muitas vezes, incentivos fiscais. Posteriormente, conta-se com a chegada de empresas privadas, que são estimuladas a se fixarem nessas áreas com o intuito de criar um dinamismo econômico, cultural e social, estimulando o turismo e a formação de um circuito cultural dotado de museus, galerias de arte, bares, restaurantes e cafés. Não à toa, opta-se normalmente pelos centros históricos, locais que sintetizam os valores culturais das cidades.

A imposição de novos usos e funções aos fragmentos urbanos contemplados pelas revitalizações faz parte de uma estratégia urbana articulada e global. São várias as cidades que definem esse tipo de projeto como o mais relevante para o seu progresso. Pode-se afirmar que a gênese dos planos de revitalização ocorreu em Baltimore (EUA), na década de 1970, onde as transformações urbanas caminhavam para a formação de um espetáculo urbano, focando na melhoria da paisagem urbana acompanhada de transformações socioespaciais.

Tal modelo foi se espalhando para outras cidades dos EUA e do mundo, como em Barcelona, Bilbao, Nova Iorque, Buenos Aires e Paris. O caso de Barcelona chama a atenção pelo amplo reconhecimento global; a cidade passou por grandes reformulações para sediar os Jogos Olímpicos de 1992, sobretudo quanto as melhorias de infraestrutura representada pela modernização de sua área portuária.

Centro histórico de Salvador, Bahia.

No Brasil a cidade do Rio de Janeiro foi uma das precursoras na adoção dos programas de revitalizações urbanas. Com influência direta dos planejadores de Barcelona, a cidade incorporou ações de retomada de investimentos em seu centro histórico no início dos anos 1990. Na última década, sob influência dos Jogos Olímpicos Rio 2016, criou-se o seu maior projeto de revitalização: o Porto Maravilha. Cidades como São Luís, Salvador, Curitiba, Santos, São Paulo, Fortaleza também estabeleceram inúmeros programas de revitalização no decorrer das últimas décadas. Aliás, é difícil pensar em uma cidade brasileira – metrópole ou cidade média – que não tenha adotado programas de revitalização, independentemente da região (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul).

Para finalizar, é importante destacar que revitalização não é sinônimo de gentrificação, ou vice-versa, mas que são fenômenos interrelacionados. Entretanto, quando os programas de revitalizações urbanas não são acompanhados de políticas de interesse social, pode-se assistir a uma grande reformulação no público que passa a se beneficiar das mudanças incorporadas ao espaço urbano. Desse modo, uma política de revitalização que seja inclusiva, deve também admitir e criar condições para que diferentes classes sociais e múltiplos usos do espaço urbano sejam possibilitados nas áreas que tornaram-se objeto de intervenção do poder público. De outra maneira, caso tal princípio não seja adotado, tende-se a forçar a saída da população pobre para áreas mais periféricas e/ou degradadas das cidades, onde passarão a conviver, novamente, com a escassez de equipamentos urbanos essenciais para a reprodução de suas vidas.

  • Leituras sugeridas

ARANTES, O; VAINER, C. B; MARICATO, E. A cidade do pensamento único: desmanchando consensos. Petrópolis: Vozes, 2000.

BIDOU-ZACHARIASEN, C. De volta a cidade: dos processos de gentrificação às políticas de “revitalização” dos centros urbanos. Coordenado por Catherine Bidou-Zachariesen com a colaboração de Daniel Hiernaux-Nicolas e Hélène Rivère d’Arc – São Paulo: Annablume, 2006. 294p.

COMITRE, F.  Processo de revalorização da cidade de Santos-SP: O alegra centro e espaços de resistência. 2013. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Programa de Pós-Graduação em Geografia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Rio Claro/ RJ, 2013.

SÁNCHEZ, F. A reinvenção das cidades para um mercado mundial. Chepecó: Argos, 2003.

  • Sobre o autor

Felipe é Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Paraná (IFPR), campus Pinhais.

6

Crise hídrica e riscos ambientais

A água irá acabar? Quais os desafios para a garantia do direito ao acesso a esse recurso tão precioso para a vida humana? Por que se tornou tão importante debatermos a problemática dos riscos ambientais no mundo e, especialmente, no Brasil? No primeiro episódio do Podcast Ecoss, o Prof. Dr. Cleber Marques de Castro aborda esses e outros assuntos vinculados aos desafios que envolvem a gestão dos recursos hídricos e o necessário combate aos riscos ambientais potencializados pelas ações humanas nos dias atuais.

Apresentação: Lorrane Nunes de Alexandria.

Entrevista e Edição: Lucas Onofre Costa

Foto Principal Pixabay Adaptada

Contra o negacionismo, muita Geografia!

A atitude de “negar” a ciência sempre acompanhou a história dessa forma de conhecimento. Mas, primeiramente, é preciso ter claro qual o propósito geral da prática científica, a fim de entendermos melhor por que certos grupos (uma vez o ignorando) apresentam-se intolerantes aos seus produtos epistêmicos.

A ciência é um tipo muito particular de conhecimento por ser: aproximativo (apenas modela os fenômenos), provisório (é corrigido com o tempo) e pragmático (tende a ser útil ao saneamento de problemas práticos). Diante disso, como o imaginário popular em torno da ciência caricaturiza suas virtudes (ela seria “infalível” e, por essa razão, teria até um ar meio “arrogante”), acaba sendo natural que muitas expectativas se vejam frustradas quando ela (1) não responde tão prontamente às nossas demandas ou (2) quando ela apresenta dados que contradizem nossas convicções pessoais.

Esse panorama é importante, pois, em grande medida, a manifestação de movimentos negacionistas tem bastante a ver com o segundo tipo de reação; ou seja: a ciência é negada porque põe em xeque ideários em torno dos quais se reúnem, passionalmente, grupos que veem ameaçada sua visão de mundo – ideários, em geral, “extremos” (por exemplo, o de que a vontade do indivíduo deve primar sobre qualquer plano coletivo). Quanto àquele primeiro tipo de reação, em tese, ele é menos grave e pode ser reparado dentro de um projeto de educação científica com alguma carga teórica. Em outras palavras: uma boa formação sobre natureza da ciência instruiria, adequadamente, estudantes e professores. E, como resultado, teríamos cidadãos informados de que a prática científica prevê mesmo percalços e obstáculos. Mas o segundo caso é mais complicado porque, por conceito, as negações “obsessivas” são as que não estão dispostas ao contraditório – justo um tipo de postura que contrasta com os cânones de racionalidade objetiva: afirmações baseadas em evidência e abertura à refutação. (Lembrando, aliás, que dúvida e ceticismo são posturas inerentes ao “espírito crítico” que é peça-chave na dinâmica evolutiva da ciência; então, não se quer “proibir” o questionamento da ciência … como alegam, de modo oportunista, alguns grupos negacionistas).

O grau de difusão, por exemplo, das teorias conspiratórias (“instituições poderosas não querem que saibamos a verdade…”) sempre dependerá da existência, circunstancial, de canais que favoreçam o encontro de adesistas a elas. Por isso é que, contemporaneamente, dado o grande protagonismo das redes sociais, os grupos constituídos em função de algum ideário partilhado conseguem congregar um expressivo contingente de membros. Embora não se possa afirmar que esses grupos sejam homogêneos, é razoável supor que muitos de seus integrantes sejam preocupantemente vulneráveis a discursos retóricos e de baixo teor argumentativo.

Uma vez que a sociedade brasileira ainda não conta com uma cultura científica robusta e bem disseminada – isto é, persiste junto ao grande público a ideia de que a ciência é um assunto técnico de exclusividade de seus profissionais –, o negacionismo tem sempre boas chances de recrutar em meio a essa população (na média, muito mal informada sobre a natureza da ciência) um contingente expressivo de pessoas que suspeitem de suas “reais intenções”. Um tipo de consequência nefasta é quando o ideário do pequeno grupo extravasa para a dimensão das atitudes práticas – gerando efeitos no seio da coletividade maior. Isso, de certa maneira, envolve ciências híbridas como a Geografia, porque questões ligadas à saúde e ao meio ambiente, por exemplo, têm sido alvo de contestação.

Relatórios embasados por instrumentos técnicos puderam revelar, há poucos anos, o avanço das queimadas na Amazônia. Ainda assim, houve quem quisesse negar o fato com a retórica de que a instituição científica divulgadora do dado estaria “ideologicamente comprometida”. Esse é um gênero de negacionismo de escala nacional que guarda correspondência com o popular questionamento sobre se estariam mesmo ocorrendo mudanças climáticas em escala global e se os fatores seriam antropogênicos. A sociedade precisa saber lidar mais estrategicamente com essas situações, pois se não há consciência e engajamento diante de problemas que afetam a todos, o grupo pode sofrer com a intransigência de uma minoria – sobretudo quando o problema em questão tem grande poder de difusividade. E vivemos isso na carne com a pandemia de Covid.  

A ciência tem o predicado de acumular um grande número de conjecturas, aplicações, casos paradigmáticos e também insucessos. Tudo isso define um portentoso acervo de ideias e experiências que sempre é consultado quando problemas novos surgem. Como temos já muitos séculos de história científica, hoje em dia a resposta aos problemas não tarda a ser desenhada. O drama da pandemia ilustra bem isso. Porque foi em tempo recorde que as primeiras vacinas chegaram ao público. E, mesmo assim, não deixaram de se manifestar os movimentos antivacina.

Quanto à Geografia, em especial, volto a destacar sua condição de campo disciplinar de fronteira. Eu penso que uma ciência tipicamente socioambiental, como ela é, deveria ter a iniciativa de se apresentar com mais frequência na arena das discussões. Isto é, demonstrar que tem instrumentos e conceitos úteis para comunicar informação precisa e confiável sobre as relações econômico-ecológicas. Pessoalmente, vejo o geógrafo como um comunicador científico habilitado a instruir a população quanto aos aspectos regionais do uso de recursos. É claro que isso passa também por um desejo do próprio estudioso da Geografia em assumir compromisso ético e lógico com os critérios da cientificidade (principalmente, o de assentar suas alegações em sólido corpo de evidências). Sem isso, poderemos ter colegas de disciplina com potencial de serem fornecedores de conteúdo aos imaginários complotistas e conspiratórios. Os perigosos componentes do negacionismo.

  • Leituras sugeridas

PASTERNAK, N.; ORSI, C. Contra a realidade: a negação da ciência, suas causas e consequências. Campinas: Papirus, 2021.

SOUSA FILHO, A. de. “A terra é plana”: o obscurantismo cínico dos negacionistas. Inter-Legere. v. 3, n. 29, p. 1-30, 2020.

SILVA, M.; REIS JR, D. Ciência, obscurantismo e o papel potencial da Geografia em comunicação científica. Revista de Geografia. Juiz de Fora, V. 12, n. 1, p. 88-116, 2022.

  • Sobre o autor

Dante é Professor do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília.

Imagem Principal 1 Planisferio-Mercator

As verdades (e mentiras) dos mapas

Projeção original de Mercator, 1587“. Fonte: IBGE – Atlas Escolar.

O mapa apresenta-se como um instrumento narrativo de uma dada realidade espacial. Entretanto, a complexidade infinita do real – o mistério da realidade – extrapola todas as possibilidades narrativas. Assim sendo, das múltiplas lentes ou perspectivas existentes – todas elas voltadas para a análise e o entendimento do real – a Cartografia e os seus mapas manifestam-se apenas como um ponto de vista, ou seja, uma forma singular de expressão cujo objetivo primordial concentra-se na promessa de tornar inteligível, através de representações gráficas, as espacialidades de um segmento do mundo concreto. Desse modo, devemos enfatizar que somente (e justamente) no cruzamento entre as várias imaginações ou vieses narrativos – do qual o mapa é somente um prisma simplificado – é que se revela o perfil da realidade investigada.

A inclinação da vontade humana no que se refere à elaboração de modelos ambientais – como capacidade de se tentar perceber imaginativamente a realidade – não é algo novo. As primeiras representações concretas do ambiente, projetadas nas superfícies das cavernas europeias, através de pintura ou arte rupestre, datam de algo em torno dos 50.000 anos e tinham como intuito registrar a percepção do espaço circundante para além da imprecisa memória (ou para além dos nossos imprecisos e voláteis mapas mentais). Tal noção embrionária de projeção permanece viva através da história da Cartografia, transformando-se em atributo irrefutável nas representações terrestres. A projeção cartográfica de Mercator, elaborada no século XVI e ainda considerada a mais emblemática, simbólica e icônica das projeções, vem consolidando uma visão de mundo peculiar no ideário do senso comum através dos séculos. A título de definição, as projeções cartográficas são entendidas como formas ou técnicas de se representar a superfície terrestre esférica de três dimensões (3D) em mapas planificados de duas dimensões (2D). Vale ressaltar, contudo, que toda e qualquer projeção traz consigo uma série de deformações ou um conjunto de ‘mentiras geográficas’.

“Projeção equidistante com o Brasil no centro do mundo”. Fonte: USP (1949).

Atrelada à projeção e gravação da percepção do ambiente adjacente nas superfícies rochosas das cavernas, surge a noção de escala de redução. Intrínseco a toda forma de representação espacial, e que jamais pode ser negligenciada, a escala de representação em Cartografia diz respeito às correlações existentes entre as dimensões gráficas (do modelo ou mapa) e as dimensões naturais (do objeto real). Isto posto, deve-se pontuar que aquele que elabora um documento cartográfico encontra-se inteiramente submetido a um sistema de proporções, ou seja, a uma redução invariável do mundo vivido – em uma certa quantidade de vezes – para que a realidade investigada seja reproduzida numa folha de papel ou qualquer outra superfície de projeção.

Outro elemento essencial pertinente ao campo do conhecimento cartográfico refere-se à adoção de um sistema de coordenadas por parte daquele que produz um mapa. Um objeto presente no mundo vivido palpável, ao ser capturado e esquematizado através das técnicas do desenho cartográfico, deve ser vinculado a uma rede de referências, cujo propósito gira em torno da localização precisa do tal elemento, bem como no que concerne à delimitação de suas dimensões físicas.

Os múltiplos itens da realidade presentes numa fração do espaço, quando submetidos ao processo de modelagem ambiental (processo de mapeamento), passam invariavelmente por uma série de seleções subjetivas. O map maker simplifica o mundo real na tentativa de torná-lo imaginável e compreensível para um conjunto de pessoas que provavelmente encontra-se afastado daquela dada realidade. Vale salientar que o sujeito que faz a leitura de um determinado mapa, simplesmente se apropria de uma imagem de mundo fixa, congelada e pré-estabelecida por um cartógrafo específico (indivíduo com as suas singularidades, imerso em crenças, preconceitos, história de vida, etc.), deslocando-se excessivamente da apreciação do verdadeiro real.

Obra “El norte es el sur”. Autor: Joaquim Garcia (1935).

Portanto, cada mapa possui a sua própria história, bem como expressa uma narrativa singular, assim como oculta seus próprios segredos. O mapa possui uma aura de confiabilidade que devemos sempre desconfiar, além de apresenta-se tal qual um mensageiro de verdades ordenadas e objetivas que devemos também sempre duvidar. Entretanto, mergulhemos sob sua superfície e uma história muito diferente emergirá. Mapas fascinam, provocam, perturbam, debocham e, sobretudo, revelam as sinceridades mais profundas não apenas de onde viemos – mas sobre quem realmente somos.

  • Referências

HARLEY, J. B.; WOODWARD, D. (org.). The history of cartography: cartography in Prehistoric, Ancient and Medieval Europe and the Mediterranean. Vol. 1. Chicago: University of Chicago Press, 1987.

THE BEAUTY OF MAPS. Direção de Steven Clarke. United Kingdom: BBC, 2010. (4 episódios).

  • Sobre o autor

Gustavo é Professor do Departamento de Geografia do Instituto Multidisciplinar da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Imagem principal Bandeira_Porto

China: a ascensão de uma nova potência mundial no século XXI

Nos últimos 30 anos, o Mundo observa um crescente avanço da República Popular da China. Esse progresso é constatado em múltiplos elementos, principalmente nos indicadores socioeconômicos e pelo papel geopolítico, cada vez maior, que o país asiático tem exercido na arena política mundial. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), em 2000, o Produto Interno Bruto (PIB) chinês era de US$ 1 trilhão. Em 2022, esse valor foi para US$ 18 trilhões, colocando o país como a segunda maior economia do planeta. Este é apenas um dado, de vários, que utilizamos para ilustrar tal evolução.

O desenvolvimento, as conquistas e a envergadura geopolítica da China contemporânea são frutos de um profundo processo de reforma política e econômica chinesa entre os anos de 1970 e 1980.  As transformações na esfera política e econômica, promovida por Deng Xiaoping, Chen Yun e Zhao Ziyang – figuras importantes do Partido Comunista Chinês (PCCh) –, levaram o país de um comunismo centralizado para o chamado socialismo de mercado. As “modernizações” política e econômica dos chineses, no século passado, permitiram a integração econômica chinesa aos mercados globais através da “política de portas abertas” e a atração de inúmeras empresas estrangeiras para operarem nas chamadas Zonas Econômicas Especiais (ZEEs), inauguradas em 1980. Atualmente existem sete grandes ZEEs (Shenzhen, Zhuhai, Xiamen, Shantou, Hainan, Kashgar e Khorgas) e outras classificadas como Zonas de Desenvolvimento Econômico e Tecnológico Nacional, Zonas de Desenvolvimento Industrial de Alta Tecnologia, Zonas Piloto de Livre Comércio, State-level New Areas, Áreas Especiais de Fiscalização Aduaneira e Zonas de Cooperação Comercial Transfronteiriças.

A “política de portas abertas” proporcionou, pelo seu modelo de funcionamento, a abertura econômica, a liberalização do comércio exterior, o avanço tecnológico, o desenvolvimento e produção industrial em larga escala e a entrada de investimentos estrangeiros na China. Estes elementos foram importantes para o crescimento estável e organizado, por meio dos Planos Quinquenais, da economia chinesa, assim como, por alçá-la a posição de maior produtora industrial e consequentemente sua maior participação na estrutura econômica mundial ao longo dos séculos XX e XXI.

Desta maneira, na ótica dos dirigentes chineses, um país forte e estável no cenário interno era necessário para a construção de uma política externa robusta que permitisse que a China ocupasse o posto e exercesse o seu poder histórico, pela perspectiva do Confucionismo, de maior Nação do Mundo. A concepção deste desenvolvimento conjunto, dos cenários interno e externo, é a chave para a ideia da “ascensão pacífica” chinesa arquitetada especialmente durante o período da liderança política exercida por Hu Jintao, entre 2003 e 2013.

Tal ascensão pacífica é pautada por dois aspectos básicos: [a] o princípio básico das cinco regras de coexistência pacífica utilizado pela diplomacia chinesa desde meados dos anos 1950; [b] a criação de uma “comunidade de futuro compartilhado global”, onde todas as Nações, independente da sua força e tamanho, podem e devem ter o direito de participar das tomadas de decisões em assuntos de ordem mundial. Na perspectiva chinesa, questões globais não podem e não devem ser pautadas em resoluções feitas por um pequeno grupo de países ou blocos hegemônicos.

Além da coexistência pacífica e da comunidade global com futuro compartilhado, os chineses são adeptos do estabelecimento de acordos de cooperação benéficos para todas as partes envolvidas. Portanto, no último século, conforme a China progrediu internamente com a atração de capital externo, desenvolvimento industrial e o investimento massivo em educação, ciência, tecnologia, moradia e saúde, a demanda chinesa por recursos para atender o mercado externo aumentou significativamente.  

Para suprir as necessidades internas, a China utiliza uma audaciosa estratégia geopolítica que é a criação de redes de infraestrutura Mundo afora. Através da chamada “Nova Rota da Seda”, também conhecida por Belt and Road Initiative (BRI) ou 带路 (em mandarim, Yidaiyilu), os chineses têm desenvolvido, mediante a acordos de cooperação, corredores econômicos transnacionais manifestados fisicamente nos territórios por ferrovias, rodovias, portos, gasodutos, oleodutos e outros projetos de energia e transporte que ligam o território chinês a outros territórios fundamentais para atender às suas demandas.

Tais corredores, além de fornecerem os recursos necessários e básicos para a produção industrial chinesa, também são utilizados para o escoamento de produtos, fabricados em território chinês, aos principais mercados consumidores do Mundo. Portanto, a China simultaneamente detém uma elevada produção industrial em seu território, que basicamente atende a todos os mercados consumidores, e desenvolve novos circuitos de circulação do capital em que ela não terá o controle total, pois, são estruturas geograficamente posicionadas em outros territórios, mas que ela certamente irá exercer um grande poder.

Desta maneira, o exercício de poder, a contestação e a relevância chinesa no cenário político e econômico mundial atual, são frutos de estratégias desenvolvimentistas meticulosamente pensadas para promover o progresso interno e externo, que devem ter limites, metas e objetivos. Tais estratégias ocorrem, em um primeiro momento, ainda no século XX, com a “política de portas abertas” e o processo de abertura econômica chinesa, abrigando empresas e o capital estrangeiro. Esses métodos de evolução econômico e político são reforçados com ascensão pacífica chinesa e o progresso socioeconômico que o país acumula desde, pelo menos, a primeira década deste século. É esta lógica, de crescimento multiescalar, de respeito à soberania e a promoção de política externa multilateral e pragmática, que garantem à China a sua centralidade cada vez maior no século XXI.

  • Leituras sugeridas

JABBOUR, E. GABRIELLE, A. China: o socialismo do século XXI. São Paulo: Boitempo, 2021.   

SANTOS, J. C. China na Ásia Central e a cooperação como código geopolítico. 2022. 163 f. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Programa de Pós-Graduação em Geografia, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica/Nova Iguaçu, RJ, 2022.

  • Sobre o autor

Jonathan é graduado e mestre em Geografia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.